A industria dos videojogos pensa que és um idiota

Nota: Artigo do nosso leitor/colaborador José Galvão

Recentemente a Ubisoft apresentou ao mundo, com pompa e circunstância, o seu novo Assassin’s Creed: Syndicate, mostraram alguns trailers dos personagens e história, bem como um trailer representativo das novidades acerca da jogabilidade e do potencial do jogo em si que ocorre em Londres durante a revolução industrial, em pleno século XIX.

 

ACsyndicate

 

Para não variar muito, a apresentação do jogo foi acompanhada pelo habitual anuncio de um sem número de edições de coleccionador, o típico incentivo para a pré-reserva no final de cada trailer em forma de DLC insignificante e claro, a season pass.

Pessoalmente estou cada vez mais dormente em relação a anúncios deste tipo, não só porque são sobre jogos que pouco ou nada mostram algo de substancialmente novo, como me tentam enfiar pela goela abaixo, conteúdo que foi propositadamente cortado do projecto inicial, com o objectivo de me sugar ainda mais dinheiro.

No entanto, este ano houve algo que embora não seja novo, acabou por ser uma novidade na forma como se insurgiu na revelação do jogo, um pedido de desculpas.

De forma muito humilde e sincera, os produtores mostram o seu arrependimento perante os graves problemas de performance de Assassin’s Creed: Unity que, segundo os próprios, era demasiado ambicioso, complexo e claro, inovador.

 

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Este ciclo perpétuo de desculpas consiste num esquema em que uma companhia faz algo asqueroso defendendo-se com unhas e dentes ou ignorando as queixas e reclamações por completo, e depois oferece um sincero pedido de desculpas mesmo a tempo de te vender o próximo pedaço de bosta.

Este conceito não é novo, na realidade já é utilizado e aperfeiçoado à mais de uma década, por aquele que eu considero o maior mentiroso, o maior tretas da industria dos videojogos, Peter Molyneux, que a cada novo Fable, prometia mundos e fundos enquanto criticava dura e desrespeitosamente o seu anterior jogo (depois de já render o que tinha a render) para enaltecer o próximo.

Eventualmente o conceito evoluiu para algo bem pior que um comportamento patológico de promessas, naturalmente as editoras AAA viram a rotina e acharam que a podiam explorar.

Quase como que a papel químico, a EA, pela boca do seu CEO Andrew Wilson, disse que, ambição não era desculpa para o lançamento desastroso e pela tremenda instabilidade no modo online de Battlefield 4, que tinham aprendido a lição, não fazendo mais nada senão desculpar o jogo, mesmo nunca pedindo de facto desculpa. Justificou-se com o argumento de que o jogo era extremamente ambicioso com o seu online com 64 jogadores (lol), mapas gigantes (LOL), 1080p (pfff…) e a tanga da evolução, e no entanto estes shows de humildade vêm de companhias que continuam a fazer o mesmo, continuam a lançar os seus jogos ‘’partidos’’, e nada confiáveis na tarefa de reparar o que lançaram aos cacos, e no entanto acham que clamar mea culpa antes de um novo lançamento resolve tudo.

 

Battlefield-4

 

Constatámos isso com o Sim City onde nos foi dito que o online era crucial e obrigatório para mais tarde ter um update para se jogar offline porque os servidores da EA não aguentaram, vimos o mesmo com o Diablo 3 em que a Blizzard defendeu o seu ‘’always online’’ até à morte, acabando por enfrentar o mesmo destino e ser forçada a voltar atrás admitindo que foi um erro já depois das elevadas receitas, estamos a ver isso hoje com a Ubisoft e as suas novelas de Assassin’s Creed, e quanto menos se falar do que a Microsoft fez com a Xbox One melhor, todas as desculpas e reviravoltas que só ocorreram depois de terem percebido que não iam conseguir impingir o seu DRM.


Estes pequenos retrocessos, estas demonstrações públicas de dar o braço a torcer, são um exemplo clássico de um padrão cada vez mais previsível, lançar um jogo estragado, inacabado e de forma insultuosa e depois defendê-lo com protesto ou em absoluto silêncio enquanto se faz tanto dinheiro quanto possível e depois, quando as receitas já foram encaixadas e está na hora de vender algo novo, afirmar o quão inadmissível é lançar o jogo naquele estado, de como lições foram aprendidas, e resulta porque gostamos de ver os poderosos de joelhos, adoramos ver esta gente beijar o chão, mas com companhias destas tão desprovidas de vergonha, é com pouco esforço que se ajoelham a pedir misericórdia enquanto nos mentem com todos os dentes, falsificando um sentimento de humildade com o intuito de ganhar apoio vocal.


Estas companhias já à muito que venderam a sua dignidade, não têm qualquer problema em fingir que estão arrependidos, mesmo que não o estejam, e de facto não o estão porque se estivessem mesmo arrependidos, isto não se teria tornado num padrão.

Regra geral, quando nos arrependemos de fazer uma coisa, paramos de fazer a coisa, é assim que o arrependimento funciona…não continuamos a alimentar um ciclo perpétuo de desculpas.

É fácil sentirmos-nos enaltecidos quando finalmente uma companhia destas admite que o seu DRM é uma porcaria, o sentimento de que justiça foi feita, quando estes mentirosos patológicos reconhecem que os seus jogos foram lançados num estado lastimável, aquele momento mágico em que afirma-mos ‘’eu bem vos disse’’ depois de um ano inteiro a bater na mesma tecla, a apontar o dedo, parece que finalmente perceberam, mas na realidade foi só isso que fizeram, fingiram que perceberam porque continuam a fazer a coisa, continuam a encaixar as receitas, continuam a não fazer nada sobre o assunto, e vão continuar com as mesmas tácticas.

 

EA-Ubisoft

 

Ainda estou para ver nascer o dia em que vejo uma destas companhias que seja, a fazer qualquer tipo de mudança baseada nas centenas de lições que dizem ter aprendido, como já disse no passado, sou apologista de se reconhecer os erros e pedir desculpa pelos mesmos desde que se faça algo para impedir que o mesmo erro se repita, mas não é isso que acontece, o que eu vejo é as companhias literalmente a cagarem nas nossas caras, pedindo desculpa por isso enquanto fazem força para cagar ainda mais, algo que tem acontecido com cada vez mais frequência e que na verdade é uma tremenda falta de respeito.

Não caias na armadilha do arrependimento e da humildade porque na realidade, a industria dos videojogos pensa que tu, és um idiota.

“idiota”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Que ou quem se mostra incapaz de coordenar ideias

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