Mar 072012
 

A Warner Brothers anunciou a sua “solução” para que os consumidores possam fazer cópias digitais dos seus DVD para uso pessoal. A iniciativa chama-se “Disc-to-Digital” e numa primeira fase envolve levar os DVD a uma loja e pagar para que sejam copiados ou convertidos. Sim. A sério. Eles esperam que as pessoas paguem por algo que poderiam fazer em casa de forma fácil e gratuita, ainda que ilegal.

Tal como deverão saber, os filmes em DVD possuem tecnologias anti-cópia (vulgo DRM) cuja neutralização é proibida por lei, tanto nos EUA como na Europa. Em Portugal a mera tentativa é punida com multa (e quem conseguir pode até ser preso). Nos EUA porém o Copyright Office tem o poder de decretar excepções a esta proibição. A neutralização do DRM para fazer cópias pessoais é precisamente um dos casos actualmente em análise, sendo que anteriormente já foi autorizada para fazer cópias para uso didático e retirar excertos, e para fazer o chamado jailbreak aos iPhone.

Esta sugestão da Warner Brothers surge assim como uma alternativa. A organização Public Knowledge, que fez a actual petição ao Copyright Office, compara os dois cenários na imagem seguinte:

Consumer%20alternative.001-001[1]

Pois… para além da canseira de encontrar uma loja que forneça o serviço e deslocar-se até ela, há que pagar e esperar que tudo funcione como previsto.

Esta proposta da Warner até me faz lembrar a (ignorada) solução prevista no Código de Direitos de Autor em Portugal. A lei permite as cópias para uso privado, e até pagamos taxas que actualmente atingem facilmente 25% nos CDs e DVDs por causa delas (e que poderão em breve ser alargadas). E mesmo sendo ilegal neutralizar DRM, a lei diz que estes não “devem” impedir os usos livres. Se for esse o caso, os “detentores de direitos” devem depositar no IGAC meios que permitam fazer as cópias permitidas por lei. Claro que nunca lá nada foi depositado e poucos terão sequer pedido alguma coisa ao IGAC, como tentou a Paula Simões. É um sistema completamente inútil.

No entanto, a proposta da Warner não se limita a isto. O artigo do LA Times fala que numa segunda fase os retalhistas online como a Amazon poderão oferecer cópias digitais aos clientes que anteriormente compraram DVD. E numa terceira fase será possível através do computador ou alguns leitores Blu-Ray fazer o upload para a “nuvem”, de modo que os filmes possam depois ser vistos em qualquer dispositivo com acesso à internet. Não são dados detalhes, mas parece algo bastante parecido ao iTunes Match da Apple, que reconhece toda uma colecção de música e a coloca disponível na “nuvem”.

Também mencionada é a possibilidade de, tendo-se apenas um DVD normal, poder receber-se uma cópia do filme em alta-definição. Pagando-se um valor adicional, claro.

Estas ideias já me parecem interessantes. São de facto bons exemplos de soluções úteis que oferecem algo de valor ao consumidor. Por oposição à primeira ideia, onde se pede aos consumidores que paguem para copiar filmes que já compraram e que podem facilmente copiar em casa. O que já não é tão fácil, gratuito ou barato, é fazer uma “nuvem” em casa, ou transformar um filme em DVD para alta-definição com qualidade Blu-Ray (sim, há os “media server” e o upscaling, mas não é a mesma coisa). É aqui que reside o valor. É a diferença entre tentar obrigar as pessoas a pagar pelo que poderiam facilmente fazer por si próprias, com leis opressivas e ridículas, ou oferecer algo pelo qual elas poderão estar dispostas a abrir os cordões à bolsa de bom grado.

Só quando perceberem esta diferença é que os gigantes da era analógica vão perceber como se adaptar à era digital.

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