Bloobourne: Sucesso ou Falhanço?

Se fosse uma personalidade ligada à industria dos videojogos, e pensasse como muitas das cabeças da área pensam, certamente teria de deixar as minhas condolências à From Software, devido àquilo que alguns na indústria considerariam ser uma fraquissima performance comercial de Bloodbourne, que conseguiu atingir “somente” mais de 1 milhão de unidades vendidas em 12 dias, apesar de ter sido altamente aclamado pela critica e jogadores, sendo inclusive, elogiado por toda a industria dos videojogos. E aqui, apesar do sucesso de vendas que todos sabemos existir, para alguns editores, com estas vendas, o jogo seria claramente um falhanço.

Nota: Artigo do nosso leitor/colaborador José Galvão

bloodborne

Na realidade, ao contrário de qualquer imagem que as primeiras linhas possam deixar, Bloodbourne não é um falhanço porque o jogo teve um orçamento de produção e marketing de acordo com a procura que se imaginava vir a existir. Porque os largos anos de experiência da Sony lhes permite saber que coisas boas acontecem quando não se bombeia dinheiro cegamente num projecto ao ponto de ser necessário distorcer a realidade para se ter o retorno financeiro!

Mas isso não acontece com todos.

Recentemente a SEGA demonstrou a tremenda confusão que se instalou no mercado AAA, admitindo que se sentiu desapontada com os 2.1 milhões de Alien Isolation e como falhou em atingir a meta pretendida. De igual modo, recordo-me de desilusão semelhante por parte da Square Enix em relação a Sleeping Dogs (1.7 milhões), Hitman Absolution (3.6 milhões) e Tomb Raider (3.4 milhões), classificando-os como desapontantes…

Desapontantes.

Enquanto Bloodbourne celebra o ter ultrapassado o milhão em 12 dias, a Square Enix chora pela ruas da amargura porque não conseguiu que o Tomb Raider atingisse 6 milhões, porque era o que esperava desse jogo… 6 milhões! Um número que, igual ou superior, provavelmente estava igualmente nas mentes da Capcom pois o seu Resident Evil 6 que vendeu pouco mais de 5 milhões, foi igualmente visto pela companhia como um falhanço.

Mas existe uma razão pela qual a From Software está contente enquanto que a Capcom, Square Enix e SEGA parecem “putos mimados a dar pontapés na porta no quarto”. É óbvio que o Bloodbourne não custou tanto a fazer! Resident Evil 6 tinha uma equipa de desenvolvimento com mais de 600 pessoas e Tomb Raider recorreu a Hollywood para criar a nova Lara Croft, podendo-se argumentar que por se gastar tanto dinheiro, têm que esperar vendas na ordem dos 6 milhões, ou ainda que, não se pode comparar Bloodbourne com Tomb Raider e Resident Evil 6 porque o Bloodbourne não teve que pagar a actrizes de Hollywood e uma equipa de 600 pessoas.  Mas o certo é que esses jogos também não precisavam de recorrer a actrizes caras e enormes grupos de desenvolvimento.

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Ás vezes tenho a sensação de que existe uma arma invisível apontada à industria AAA que os obriga a investir quantidades obscenas de dinheiro ao ponto em que precisam de vender mais cópias do que a realidade permite, e isso é um mau, mau, muito mau, terrivelmente mau, modelo de negócio.

Quando oiço a EA dizer que o Dead Space 3 precisa de vender pelo menos 5 milhões para conseguir salvar a série, não sinto pena da EA. Não digo que não é razoável porque a produção do Dead Space 3 deve custar imenso dinheiro, fico sim, completamente chocado com a falta de visão destas companhias que a todo o custo querem o seu próprio Call of Duty, porque todos querem ter o maior jogo do mercado, mas convenhamos meus caros, resfriem os ânimos, revejam as vossas expectativas porque só um jogo pode ser o maior. É por isso que é o maior.

Esperar vender tanto como um Call of Duty baseando-se em desejos e sonhos molhados, é no mínimo ridículo. Ainda mais engraçado é verificar os atalhos da série COD que reutiliza o mesmo motor de jogo e “assets” enquanto continua a bombear sucessivos “hits” comerciais, e ao contrário de alguma descrença popular, continuam a ser jogos decentes. Ironicamente a EA gasta milhões todos os anos a tentar bater COD que provavelmente deve precisar de metade do investimento para ter bem mais sucesso.

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Bloodbourne não foi feito no mundo dos contos de fada, onde o dinheiro sai do pote de um gnomo verde sorridente que vive no reino do algodão doce e onde os motores de jogo são oferendas dos anjinhos. Não! Foi concebido no mundo real, conhece a sua audiência, sabe o que esperar, planeia o seu orçamento e tenta vender o maior número de cópias possível, rejubilando com o sucesso alcançado, e no entanto, é um jogo que ironicamente é lindo de se ver e ainda mais gratificante de se jogar.

Tendo Bloodbourne a riqueza visual que tem, a jogabilidade sólida que oferece e sendo feliz com as vendas que teve, não há desculpa para o resto da industria dos videojogos. Ninguém obriga estas companhias a afundar quantidades ridículas de dinheiro em projectos obcecados pela mais alta fidelidade visual.

A maioria das pessoas não quer saber do ultimo grito em motor de jogo, por muito que a Crytek vos diga o contrário, porque se tivesse assim tanta importância, a PS1, PS2 e Wii, não teriam ganho as suas respectivas gerações, as pessoas só querem bons jogos, e isso é perfeitamente possível sem esbanjar dinheiro como se fosse água.

O meu filho tem 9 anos e embora receba muitos NÃO, a sua lógica de ver o mundo é a de que, se ele quer, logo vai ter, o que me faz lembrar estas companhias da industria AAA que parecem partilhar da mesma lógica. Tomb Raider deverá vender 6 milhões, nós queremos que venda 6 milhões, logo vai vender 6 milhões, é assim que um miudo de 9 anos pensa, mas é-lhe permitido, porque é uma criança. No entanto estas corporações não se podem dar a esse luxo até porque a industria não é propriamente a Rua Sesamo…

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