Como a Ubisoft queimou a sua imagem em 2014

A necessidade de se fazer dinheiro a períodos fixos levou a Ubisoft a estragar a sua imagem junto dos seus clientes, durante o ano de 2014.

EA-Ubisoft

Por muito boa que uma empresa seja, ou por muita qualidade que a sua próxima entrega possa vir a ter, a imagem que perdura na cabeça das pessoas prende-se primeiro com o último produto jogado, e logo de seguida com o passado recente. E nesse aspecto a Ubisoft em 2014 queimou-se valentemente, com uma série de produtos que decepcionaram o consumidor.

Após um fantástico Assassins Creed IV: Black Flag, que reabilitou mesmo a imagem e a jogabilidade já cansativa de Assassins Creed, a Ubisoft parecia estar para ficar.

A empresa apresentara imagens de futuros projectos e estes pareciam revolucionários e fantásticos.

Publicidade

Retomando o nosso artigo

Mas infelizmente nada disso veio a acontecer. E o que se seguiu… foi uma desgraça. Vamos ver cronologicamente os jogos lançados para a nova geração:

WATCH DOGS

Quando do lançamento de Watch Dogs aUbisoft era basicamente conhecida pelos seus dois franchisings de maior sucesso, Far Cry e Assassins Creed.

Ora face a estes jogos, o universo apresentado em Watch Dogs parecia bem mais atractivo. Uma cidade populada onde se manipulava todo o tipo de tecnologia era uma premissa promissora para um jogo que parecia inovador.

Efeitos de vento dinâmicos, roupas que reagiam realisticamente ao vento, uma qualidade gráfica abismal com efeitos de fumo, de luz e uma densidade de pessoas fantástica, eram o prometido nos trailers de revelação do jogo. Era a nova geração!

Mas quando o jogo saiu… nada foi cumprido. Para além do jogo falhar os esperados 1080p, o que se viu foi um jogo bastante inferior graficamente ao anunciado. A Ubisoft negou qualquer downgrade, mas análises ao código PC vieram a confirmar a existência dos efeitos gráficos originais, desactivados.

O downgrade associado às baixas resoluções apresentadas nas consolas (792p na Xbox One e 900p na PS4), e o facto de o jogo ter falhado redondamente em impressionar, tornaram Watch Dogs uma das decepções do ano.

No entanto o jogo saiu relativamente livre de bugs e problemas. Mas a performance, resoluções, e qualidade geral do jogo, ficaram bem abaixo do esperado e anunciado.

ASSASSIN’S CREED UNITY

Assassins Creed Unit prometia atingir os 1080p 60 fps nas consolas. Tal era conseguido com um novissimo motor que a Ubisoft anunciava ter sido construído de raiz a pensar na Xbox One e Playstation 4. A isso juntava-se uma longa distância de visão, e um número de NPCs impressionante no ecra.

Este tipo de situações não era novidade, e pontualmente alguns jogos da anterior geração já o tinham feito. Daí que com o enorme poder da nova geração por usar, as expectativas eram grandes.

Quando o jogo saiu, ao jogo era bom. Mas infelizmente estava totalmente imerso em problemas. Fracas performances mesmo em sistemas de milhares de euros, bloqueios, bugs das mais diversas, pop ups, e… micro transacções.

A Ubisoft acabou por reconhecer os erros, oferecendo um futuro DLC gratuitamente a todos os que compraram o jogo, e oferecendo um jogo à escolha a quem comprou o season pass.

Mas não se julgue que a oferta foi de boa fé. Na realidade a oferta tem um grande objectivo. O evitar processos em tribunal, e isso é bem claro na aceitação das condições de levantamento do jogo ofertado que citamos de seguida:

You hereby irrevocably and unconditionally RELEASE, WAIVE, AND FOREVER DISCHARGE AND COVENANT NOT TO SUE Ubisoft Entertainment S.A., and each of its past, present and future divisions, parent companies, subsidiaries, affiliates, predecessors, successors and assigns, together with all of their respective past, present and future employees, officers, shareholders, directors and agents, and those who give recommendations, directions, or instructions or engage in risk evaluation or loss control activities regarding the Campaign (all for the purposes herein referred to as “Released Parties”) FROM ANY AND ALL LIABILITY TO YOU, your assigns, heirs, and next of kin FOR ANY AND ALL CLAIMS, DEMANDS, CHARGES, LAWSUITS, DEBTS, DEFENSES, ACTIONS OR CAUSES OF ACTION, OBLIGATIONS, DAMAGES, LOSS OF SERVICE, COMPENSATION, PAIN AND SUFFERING, ATTORNEYS’ FEES, AND COST AND EXPENSES OF SUIT, KNOWN OR UNKNOWN, SUSPECTED OR UNSUSPECTED, ARISING OUT OF OR RELATED TO THE PURCHASE, ACQUISITION, RENTAL, POSSESSION AND/OR USAGE, AND/OR THE INTENT TO PURCHASE, ACQUIRE, RENT, POSSESS AND/OR USE, THE ASSASSIN’S CREED UNITY VIDEO GAME AND/OR THE ASSASSIN’S CREED UNITY SEASON PASS ON ANY AND ALL PLATFORMS, AND/OR RELATED TO THE CAMPAIGN, WHETHER CAUSED BY THE NEGLIGENCE OF THE RELEASED PARTIES OR OTHERWISE.

Publicidade

Retomando o nosso artigo

Muito resumidamente, a Ubisoft oferece o jogo mediante o compromisso de a pessoa e mesmo os seus familiares, herdeiros ou nomeados ficarem impedidos de processarem a empresa ou empresas a ela ligadas.

Naturalmente uma situação que, pelo menos em Portugal, de nada vale em tribunal uma vez que os direitos do consumidor são legislação e isto são apenas meras regras internas que nunca se podem sobrepor à legislação geral, e criadas com o intuito de defender uma das partes mediante “suborno” da outra com uma oferta de um produto.

Entretanto o jogo tem recebido vários patches, com o último, o quarto a totalizar vários gigas de tamanho (6,7 GB), mas que apesar de resolver alguns problemas, trouxe igualmente alguns novos, deixando a situação basicamente semelhante. E diga-se que um patch de 6,7 GB não é um patch, é quase um jogo novo!

Não se pode deixar de referir que o jogo teve um embargo ás análises antes do seu lançamento, o que dado o estado lastimoso do jogo, parece mostrar que a Ubisoft tinha consciência dos problemas.

THE CREW

O The Crew é o último jogo AAA da equipa. Trata-se de um jogo de corridas arcade onde se pode explorar os Estados Unidos da América, numa escala reduzida, mas contendo os marcos geográficos mais marcantes do Pais.

Trata-se de um jogo onde o Multi-jogador é uma realidade, com qualquer um a poder juntar-se ao jogo a qualquer momento, o que prometia um MMO social de carros a um nível inédito.

No entanto as análises saem, e são apenas medianas. Infelizmente o jogo está longe de ser uma inovação. Graficamente os veiculos estão mediocres e o grafismo geral dá a entender um jogo desenvolvido para a anterior geração de consolas que foi mudado para a nova geração à ultima da hora.

A piorar isto, num mundo tão grande, o número de carros e “upgrades” é extremamente limitado. E mais uma vez, as microtransações aparecem no jogo.

Mais uma vez o jogo teve embargo às análises com a Ubisoft a nem sequer enviar cópias do jogo.

FAR CRY 4

Far Cry 4 é um pouco a excepção que confirma a regra. O jogo saiu excelente, e teve excelentes notas, sendo consensualmente considerado um grande jogo. No entanto também há algo a dizer sobre sobre este jogo, uma vez que se esperaria que o mesmo fosse uma inovação face à versão anterior, do que aquilo que é. E comparativamente, as versões para as consolas de anterior geração, apesar de menos efeitos gráficos e menor resolução, são basicamente o mesmo jogo, e visualmente muito similares. A revolução esperada de nova geração não aconteceu!

Publicidade

Retomando o nosso artigo

TETRIS

O exemplo mais recente de problemas em jogos da Ubisoft surge no Tetris. Uma versão re-editada para as consolas de nova geração deste jogo, e onde as paragens e abrandamento são algo comum. E esta é a situação mais vergonhosa de todas dada a comparativamente pequeníssima complexidade do jogo.

2014, um ano a esquecer

O ano de 2014 foi terrível a nível da imagem da Ubisoft no cliente.  As vendas podem não reflectir ainda isso dado o bom nome que a empresa trazia de trás, mas dificilmente as pré-reservas de jogos desta empresa voltarão a atingir valores tão altos.

A Ubisoft pode melhorar a sua imagem. Far Cry 4 mostra a mestria da equipa, e a boa vontade revelada em Assassins Creed: Unity também foi uma boa jogada de reabilitação.

Mas acima de tudo a Ubisoft precisa de resolver os problemas nos seus jogos. E não pode ter pequenos jogos como Tetris a ajudar a manchar a sua imagem. Afinal a ideia que passa é que a empresa pura e simplesmente está a seguir os passos da Electronic Arts e a lixar-se para o consumidor. E por muito boa vontade que haja em corrigir os erros o cliente não está para pagar 70 euros para jogar jogos incompletos e cheios de problemas que depois recebem patches de vários GB que não resolvem verdadeiramente os problemas.

Publicidade

Posts Relacionados