E3: Emoção, Excitação, Esperança!

A E3 está ai à porta, é aquela altura do ano para um Gamer, é quando os sonhos se tornam realidade, é quando algumas desilusões nos partem o coração, é quando toda uma jornada de ansiedade termina…

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Acompanho a E3 desde que me consigo lembrar, ainda a internet não era nada mais que um projeto universitário e já andava eu a acompanhar o evento como podia, comprava literalmente todas as revistas de videojogos que conseguia encontrar, para saber o que esperar. Mais tarde, e ás vezes quase um mês depois da E3 já ter acabado, lá ia a correr para comprar o quiosque quase todo, na ânsia de saber como tinha sido, e o que ai vinha! Nos dias de hoje, e graças à internet, as revistas são outras, são em maior número, gratuitas e atualizadas ao segundo, e claro, posso fazer algo inimaginável à 20 anos atrás, ver a E3 em direto!

Confesso que o facilitismo retirou algum do sabor à coisa, mas o facto de já não ser o único ”puto” da minha rua, a saber o que era a E3, e agora partilhar e discutir o meu entusiasmo com imensa gente que gosta de algo que costumava ser de um nicho, é uma garantia de que a chama continua bem acesa. A E3 para mim sempre foi um pouco como é o Natal para as crianças, é aquela época do ano em que tudo, pode de facto, ser possível, desde prendas inesperadas, a prendas que só existem na minha cabeça, e mesmo que seja um ano mais fraco, o que nunca faltam são guloseimas, montes de guloseimas que muitas vezes nos adoçam a boca nos momentos mais tristes, porque de facto existem anos mais tristes, e a E3 não é excepção, aliás, a E3 perdeu força ao longo dos anos, ao ponto de ser posta a hipótese de se acabar com a exposição de videojogos mais prestigiada do mundo. Felizmente a organização deu a volta por cima e conseguiu voltar à boa forma, embora sem a mesma energia do tempo em que eu comprava revistas desalmadamente, mas houve algo que veio mudar tudo, o inicio de uma nova geração de consolas, cortesia da E3 2013.

O ano de 2013, teve um inicio repleto de muitas incertezas para a industria dos videojogos, apesar da excitação que é o desvendar de uma nova geração, pairava no ar, uma nuvem negra carregada de dúvida e receio, em relação ao que estava para vir, rumores de DRM e o fim do mercado de usados, deixaram a comunidade gamer à beira de um ataque de nervos, o medo do desconhecido acompanhou muitos desde os respectivos eventos de revelação das novas PS4 e Xbox One, até à conferência da Microsoft, altura em que a nuvem negra carregada de dúvida e e receio, deu lugar a uma tempestade de indignação e fúria, inédita pela sua força e tamanho, o DRM era real, as regras para vendermos os nossos próprios jogos era uma farsa, emprestá-los era uma carga de trabalhos e era bom que a ”net” estivesse sempre ”On” sob pena de nem sequer podermos jogar um jogo sem componente online, para a Microsoft, basicamente o cliente seria o recluso, e a Microsoft a comissão da liberdade condicional do Ministério Público. Perante terrível cenário, todos os olhares (e esperança) estavam postos na Sony, e no que esta faria na sua conferência.

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Naquele que ficará registado na história da E3, como um dos seus momentos clássicos, Jack Tretton pisou o palco, e de forma ousada, proclamou que a PS4 iria suportar jogos usados, respeitar o nosso direito de propriedade e o desejo de nos tratar com um pouco de dignidade, mas se acham que isso não é digno de ser aplaudido, então permitam-me explicar porque de facto, é digno de aplauso. Concordo plenamente que de certa forma, é triste, é triste que nos dias de hoje, a Sony não ter feito nada, deixar as coisas como elas estavam, seja digno de aplauso, é verdade, a Sony de facto não fez nada, mas ao mesmo tempo, as suas acções (ou falta delas) ajudaram a contextualizar o quão longe a industria dos videojogos estava disposta a ir. Não me vou iludir, admito que é ridículo que o Jack Tretton seja tratado como um herói, por se impor e dizer algo que qualquer companhia decente que se importa com os seus clientes, devia dizer, é ridículo que essencialmente a Sony não fez nada e foi elogiada por isso, é ridículo que tenhamos ficado tão gratos perante tamanha inatividade, mas no entanto, essa era a triste realidade, a industria à nossa volta tornara-se tão podre, que a Sony ao não fazer nada, foi de facto um dos gestos mais heroicos que uma corporação teve para com os gamers nos últimos anos, é representativo do estado lamentável em que se encontra o mercado mainstream, ao ponto de celebrarmos o facto de uma companhia decidir não nos maltratar.



Não podemos negar que a tentação deve ter estado presente para a Sony, a companhia sabe uma coisa ou outra, sobre como proteger o que é seu, e com a Microsoft a receber uma quantidade considerável do ódio por sonhar com um futuro standard de domínio sobre o consumidor, a Sony tinha as ferramentas que precisava para implementar, de mansinho, o seu próprio DRM. Parecia que a Microsoft não seria a única vilã nesta história, e como atriz secundária, a Sony podia ter aguentado o ”golpe”, os jogadores não teriam outra opção senão escolher um mal menor. Segundo consta, a Sony ainda não tinha decidido, acerca da sua politica de jogos usados, até ao último minuto, o que é indicador do quão difícil deve ter sido tomar uma decisão, não que eu concorde que deva ser uma decisão difícil, mas a Microsoft tornou-a assim, enviado a mensagem de que era preferível pôr corporações à frente dos consumidores, e satisfazer as necessidades de alguns CEO’s em vez das necessidades de milhões de gamers, descartando criticismo com a desculpa patética, ”é apenas uma minoria muito vocal”, mas a Sony não mordeu o isco, e por isso, sim, acho que é digno de aplauso!

Outra coisa que me agradou, foi a menção direta aos jogos usados, se bem se lembram, depois da Sony apresentar o evento de revelação da PS4, foram muito esquivos em relação a esse assunto, apenas diziam que, tomariam a atitude certa, para os executivos desta industria, DRM e jogos usados, são autênticos tabu que apenas são mencionados quando questionados diretamente, teria sido fácil para a Sony, não dizer nada e fazer um ”briefing” na manhã seguinte. Dizer que se suporta jogos usados no palco em plena E3, é algo verdadeiramente histórico, é quase o mesmo que um grande estúdio de cinema anunciar nos Oscares, que é fã das pessoas que entram nas salas de cinema com câmeras de filmar, é de facto uma página importante da nossa história. Naquela noite a Sony levou a batalha para a porta de entrada da Microsoft, Jack Tretton praticamente crucificou a Microsoft na sua própria cruz como resultado de um assalto às suas politicas anti-consumidor, fazendo com que muitos elevassem os seus cálices de brandy para brindar à posição tomada.

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Como se a situação por si só, já não fosse constrangedora para a Microsoft, em vez de arrefecer os ânimos, meteu ainda mais lenha na fogueira, tomando uma atitude arrogante, personificada por Don Matrick e a sua infame declaração, ”se quiserem jogar offline, temos uma consolas para isso, chama-se Xbox 360…” Felizmente, e como todos sabemos, a Microsoft teve o bom senso de voltar atrás com as suas políticas, Don Matrick foi encaminhado para sair pela porta dos fundos, e a sua consola tornou-se… numa consola.   Para mim a E3 de 2013, vai ser sempre recordada pelo palco onde ocorreu a maior batalha que já presenciei na história dos videojogos, a Sony não só deu uma lição à Microsoft sobre a arte da guerra que orgulharia o próprio Sun Tzu, como foi levada em ombros, com emoções à flor da pele, com os gamers a vibrar de excitação e onde a esperança prevaleceu, sendo considerada uma verdadeira heroína.

Concordo que a Sony não devia ter sido vista como um heroína, por ter feito o que está certo, mas num mundo onde o errado se tornou banal, eu aceito, a Sony não fez nada, mas ao mesmo tempo, o seu gesto significou tudo.

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