Estudo de pirataria encomendado, resultado desfasado

Às vezes há situações que quando analisadas se revelam caricatas.

E tal aconteceu quando recentemente tive oportunidade de ler uma notícia sobre um suposto estudo realizado pela universidade católica e que referia dados relacionados com a pirataria em Portugal e os benefícios para a economia caso a mesma fosse reduzida.

É que quando o li achei que a Universidade Católica tinha arranjado uma forma de injectar dinheiro nas bolsas dos Portugueses, uma vez que o estudo apresenta dados que, ou são totalmente contraditórios e irrealistas, ou então teria sido mesmo isso que a Católica teria descoberto, uma forma de financiar os Portugueses.



Para começar o estudo refere situações que não necessitam de um estudo para serem percepcionadas, como por exemplo:

– Quanto maior o nível de rendimento de um país, menor a taxa de pirataria; (Naturalmente quando mais dinheiro houver nos bolsos das pessoas mais possibilidade há de se obter um original, com as vantagens a ele associadas. Mas claro nem sempre um original é só vantagens, basta ver que um Blu Ray original pode demorar quase 4 minutos a ser reproduzido devido aos DRM existentes)
– Quanto maior o nível de desenvolvimento humano, menor a taxa de pirataria; (Naturalmente que com o desenvolvimento humano surge a educação, boas maneiras e civismo, pelo que o piratear por piratear não se torna tão comum)
– A pirataria é uma característica dos países com menor abertura tecnológica; (Naturalmente que se não se arranja os produtos nas lojas, vai-se arranjar onde?)
– Existe uma forte correlação entre taxa de pirataria e percepção da corrupção; (Naturalmente. E acho que esta nem necessita de comentários)
– Existe uma relação entre pirataria e índices de formação e educação, isto é, os países onde os resultados escolares são mais elevados apresentam taxas de pirataria mais baixas. (Mais uma vez vem à baila o que já foi referido anteriormente com a questão do civismo e da educação)



A questão é que este estudo é aplicável a economias estáveis e não a países em crise e onde as muitas pessoas lutam diariamente para obter dinheiro para podem conseguir realizar um acto tão básico como comer. E se isto te soa a estranho, então é porque ou vives fora de Portugal, ou então estás num casulo demasiadamente afastado do país real.

Daí que quando se refere no mesmo estudo que uma redução para 30% na pirataria de software, a ser realizada num período de quatro anos, poderia permitir a criação de 4244 postos de trabalho, bem como aumentar 1.150 milhões de euros o Produto Interno Bruto, bem como a obtenção de receitas fiscais no valor de 320 milhões de euros há que questionar: Como? Quem? e com que dinheiro?

O estudo conclui ainda que a pirataria de software “representa uma perda anual em rendimento no mercado nacional de 193 milhões de euros”, uma situação que sinceramente deveria ser apoiada de mais dados, e não apenas de extrapolações baseadas na ideia de uma cópia pirata = uma cópia perdida e no conceito de que, milagrosamente, com a diminuição da pirataria, os bolsos dos Portugueses ficariam repentinamente recheados ao ponto de lhes permitir gastar pelo menos mais 193 milhões de euros em software.

Parece-nos por isso que este estudo, apesar do seu eventual valor que possa ter, não só não tomou em consideração a componente do possível ganho que a pirataria pode trazer, como não tomou em conta as vendas de outros produtos, nomeadamente hardware, media centers, media, discos rígidos, monitores, Smart Tv’s, etc, alimentados por essa mesma actividade, como também esquece totalmente uma importante realidade: É que actualmente, com mais ou menos pirataria as vendas não vão subir. É que não sei se a Católica tem visto as notícias, mas estamos na maior crise que Portugal já atravessou, e os números oficiais do desemprego apontam para os 15%, isso sem tomar em conta os desempregados de longa duração!

Por isso, no mínimo há que referir que a validade deste estudo na conjectura actual nos parece, no mínimo, desfasada.



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