Futuro exclusivo da Playground não terá melhorias para a Xbox One X… terá cortes para a Xbox One!

Este foi um dos receios quando se falou na primeira consola de meio de geração. O ver-se a consola existente relegada para segundo plano. A Sony não fez isso com a Pro ao forçar a criação dos jogos com base na PS4. Mas a Microsoft não quer fazer o mesmo, e está a admitir desenvolver jogos pensados para a X que serão cortados para correr na One base.

Quando se ouvir falar pela primeira vez numa consola de meio de geração tudo era apenas um rumor em torno de um nome: PS4K, tambem chamada de PS 4.5. E nessa altura nada se sabia sobre a consola, excepto que a mesma estaria a ser desenvolvida para correr jogos PS4 a 4K.

A reacção da comunidade Playstation foi no entanto enérgica quanto a esta consola. Ela não agradou e contaram-se às largas centenas os blogues e youtubers que reagiram mal à notícia alegando que deixariam de comprar Sony se essa consola pudesse de alguma forma piorar a experiência de jogo na PS4 base.

Felizmente isso não aconteceu! Apesar de as consolas de meio de geração não serem bem vistas pela quebra de homogeneidade que criam numa mesma comunidade, ou por outras palavras, pelo facto de apresentarem resultados diferentes das consolas bases, a realidade é que a PS4 Pro acabou por ser exclusivamente suportada de uma forma que nunca prejudicou a sua irmã mais velha e menos potente. Ela basicamente melhora os jogos criados para a base, mas a base continua a ser a plataforma primordial de desenvolvimento, aquela para a qual os jogos são concebidos, desenvolvidos e optimizados. A outra consola apenas trabalha em cima disso dentro das suas possibilidades.

Basicamente a PS4 Pro, mesmo não desejada, acabou por ser efectivamente uma oferta alternativa para quem tem uma TV 4K e quer tirar melhor partido da mesma. E pouco mais do que isso!



E nesse sentido a comunidade aceitou-a. Não a deseja, preferia que não existisse, que seja um modelo de consola que não se volte a usar, mas aceitou-a!

Mais recentemente foi a vez da Microsoft fazer o mesmo com a sua Xbox One X. E aqui a abordagem foi algo diferente! A consola é de tal maneira diferente da  sua antecessora que no fundo o que temos entre as duas não são meras melhorias, e chegam a ser autênticos saltos geracionais. O aumento de RAM em mais 4 GB que permite texturas de alta definição, o aumento de resolução para resoluções até 4K, quando a One se fica normalmente pelos 900p acabam por revelar diferenças de resolução e qualidade de texturas entre as duas consolas ao nível daquilo que existiu entre a Xbox One a Xbox 360, e que apenas não é tão perceptível pois o patamar de qualidade agora num nível superior.

Curiosamente a Microsoft quando anunciou a sua X veio revelar que se mostrou surpreendida com aquilo que foi a Pro, algo que perante esta abordagem tão diferente face à consola base não é de admirar. Mas com ou sem intenção da Sony, a realidade é que a Pro, face à PS4  não criou um desfasamento que deixasse para um plano demasiadamente distinto os largos milhões de clientes já existentes. Na Microsoft a coisa não se passou da mesma forma!

Nesse sentido, usando a mesma coerência face ao que se pensou para a PS4 Pro, a Xbox One X não é igualmente bem vista por nós, até porque exacerba tudo aquilo que se criticou na Pro, e cria uma disparidade enormes entre utilizadores daquilo que é, supostamente, a mesma consola.

A questão é que o que temos visto até nem é assim tão radical quanto poderia teoricamente ser. A maior parte dos jogos de terceiros está apenas a usar a X para melhorias, e tal como com a Pro, não lhe está a dar a devida atenção. A consola é vista como algo capaz de melhorar a Xbox One, mas o mercado que dá dinheiro é nessa que existe, e é para essa que os jogos são feitos.

Infelizmente há um ponto que joga contra a One. Uma diferença muito grande que distingue o que se passa entre a PS4 e a PS4 Pro e a Xbox One e a Xbox One X. A arquitectura e conceito do hardware!

No primeiro caso, ambas as consolas Sony são basicamente em tudo semelhantes, apenas existindo mais performance do lado da Pro e 1 GB extra destinado às aplicações e a libertar a GDDR5 para a colocação do framebuffer de resolução superior, mantendo assim a mesma memória livre em ambas as consolas. A Pro foi criada para ser uma PS4 mais capaz a nível de resolução, e pouco mais do que isso. Ou seja os jogos são, em 90% dos casos, exactamente iguais em ambas as consolas, apenas beneficiando de alguma resolução e performance extra. Nos restantes 10% temos alguns efeitos adicionais.

Já no segundo caso, a igualdade não se pode dizer que existe a esse nível! A Xbox One X possui mais 4 GB de RAM que a Xbox One, e essa memória permite não só albergar o framebuffer sem cortes de memória, como ainda permite a colocação de texturas 4K. Mais ainda, a arquitectura interna das duas consolas é radicalmente diferente, e o conjunto eSRAM + DDR3 que tanto prejudicou a Xbox One a nível de resoluções foi substituído por GDDR5, criando uma arquitetura em tudo igual à da Pro e PS4.

Se isto pode parecer um detalhe, não o é! A arquitectura da Xbox One, pelos seus limites, requer uma gestão muito cuidada da memória para se extrair as larguras de banda existentes,  e consequente performance, ao passo que a memória da X não requer tal cuidado. E tal tem uma de duas consequências: Ou se cria código duplo, que optimiza ora para um lado, ora para o outro, ou se escolhe uma consola para se optimizar, e a outra fica como estiver. E neste último caso, com ambas as consolas PS4 a usar a mesma arquitectura da X, adivinhem que tipo de código se torna mais comum, e quem pode ficar mais penalizado?

Estas situações ocorrem, apesar que não é neste artigo que as vamos enumerar. Mas basta dizer que se olharem para os jogos de 2015 e 2016 perceberão que o fosso de performances entre a PS4 a Xbox One estava a diminuir com o uso inteligente de resoluções dinâmicas, e boas optimizações da gestão da largura de banda. Mas vejam os jogos de 2017, e percebam que a Xbox One voltou basicamente para os 900p ou menos. E aqui nada nos tira da ideia que o código comum entre a X e as PS4 é, pelo menos parcialmente, o responsável por tal!

Basicamente, no meio de tudo isto, e como já tínhamos referido anteriormente, este conceito de arquitectura comum com as consolas Sony, atira a One base um pouco para segundo plano… e isso é algo que os possuidores da consola, que a compraram apesar de todas as controvérsias e que permitiu à Xbox chegar até aqui, não mereciam! Nesse sentido mais valia uma consola de nova geração e não se vir com falinhas mansas que referem que ambas as consolas “são a mesma consola”. Até porque isto pode ser verdade para quem programa que usa o mesmo código em ambas, mas não para quem obtém os jogos e os seus resultados.

Quando temos jogos (Sonic Forces) a 30 fps 720p (uma resolução consola de 2006) na One, não podemos exactamente dizer que temos a mesma coisa quando este jogo corre a 1800p 30 fps (uma resolução consola de 2016) na X.  É quando temos outro jogo (Shadow of War) a 900p 30 fps na One, tambem não podemos dizer que temos a mesma coisa quando este jogo corre a 4K 30 fps com texturas de alta definição, e várias melhorias gráficas, na X. Isto são diferenças que se podem considerar como geracionais e mesmo superiores ao que vimos entre a Xbox 360 e a Xbox One. Vejam este artigo, e aguardem as imagens carregar pois elas demoram, para perceberem as diferenças entre a versão da Xbox One e da Xbox One X deste último jogo.



Mas como dizia antes, no fundo estas vantagens da X estão a ser um pouco negligenciadas pela maior parte das third que preferem encontrar aqui um ponto de equilibrio. E o que vemos são jogo que nem alcançam os 1080p na One e nem alcançam os 4K na X.

Basicamente uma situação que não agrada à Microsoft!

Mas o que pretende então a Microsoft? Ver os jogos optimizados para a base e melhorados na X, ou optimizados para a X e cortados na base?

A resposta é dada pela Playground Games, que veio dar a conhecer que o seu próximo exclusivo Xbox, um RPG de mundo aberto, está a ser desenvolvido de raiz para a Xbox One X.



Eis o referido:

Estamos obviamente a começar neste momento o desenvolvimento num jogo por anunciar. E a plataforma de desenvolvimento para esse jogo é a Xbox One X, o que é muito bom para nós, e no fundo para os jogadores numa série de maneiras. Primeiro é bom desenvolver para ela, é incrivelmente poderosa, e tem mais memória do que alguma vez tivemos. Daí que é um excelente kit para desenvolver o jogo. E quanto mais fácil e rápido for desenvolver o jogo, mais coisas consegues fazer.

O que aqui é dito mostra muito das ideologias sobre o conceito do que deverá ser o futuro das consolas Microsoft!

Para começar, ao darem a entender um uso livre da memória da X, tal leva a questionar que tipo de cortes a Xbox One irá ter. Porque se na realidade a ideia é colocar o jogo a correr também na Xbox One, então a memória que o jogo pode usar continua a ser a mesma de sempre, e a memória extra da X só pode ser usada em texturas. Daí que referir-se, nesta fase inicial de desenvolvimento, que “há mais memória” é realmente algo que dá o que pensar! É que se o jogo vai também sair para One, então, na prática, salvo para texturas de melhor qualidade… não há!

Depois a questão do “quanto mais fácil e rápido for desenvolver o jogo, mais coisas consegues fazer” também nos levanta questões. As optimizações para caber na memória da One, usar devidamente a sua largura de banda, usar a eSRAM e os Move engines, não vão gastar o mesmo de sempre? Como é que desenvolver para a One X, uma consola com especificações superiores,  e que não requer essas optimizações, resolve ou simplifica isso?

Estas são perguntas coerentes e básicas que surgem ao lermos estas palavras! E nesse sentido, basicamente o que as palavras de cima dão a entender é algo que não é dito! Que neste jogo a Xbox One está a ser colocada de lado ou para um plano secundário! E este jogo que só sairá daqui a uns bons anos pois está em fase inicial de desenvolvimento, só será o jogo concebido de origem quando executado na X, se é que realmente alguma vez irá sair na One, e isso pode ser algo que nesta fase não interessa dizer!

A alternativa a isto é aceitarmos que nos estão a dar uma roda de estúpidos nas frases que usaram e que na realidade tudo isto não passa de uma suposta promoção à X, sendo tudo uma valente treta.

Seja qual for o caso, o menosprezo da One base está bem patente! Ter, ou passar a imagem de que se tem, a consola de meio de geração como plataforma de desenvolvimento é claramente colocar para segundo plano 35 milhões de utilizadores em favor de 600 mil. Tal nunca deveria acontecer, pelo menos para já!

A realidade é que estas frases despertaram igualmente no entrevistador questões, e que este imediatamente perguntou se tal não prejudicaria a Xbox One e a Xbox One S.

A resposta foi a seguinte:

Definitivamente penso que durante a fase de desenvolvimento, veremos a tradução de benefícios para outras plataformas que desenvolvemos, tal como a Xbox One e mesmo o PC. e penso que isso advém da ferramenta uniformizada de testes em que estamos a trabalhar.

Há aqui uma resposta contornada e pouco clara. Não há, não pode haver, e e nem nunca houve benefícios para um hardware menos capaz o desenvolvimento ser feito num outro mais capaz. O que é dito é pura e total demagogia e um “engana meninos e papa-lhes o pão”! Hardware menos capaz, para ter as melhores performances e tirar partido do código, tem de ser aquele onde o jogo é desenvolvido, e acima de tudo optimizado. Se a X consegue igualar ou melhorar tudo o que a One ou S fazem, o contrário a nível de cortes não ocorre na mesma proporção linear, e os cortes podem ter de ser totalmente desproporcionados face ao que a X apresenta. Por exemplo, se um jogo for feito e optimizado a pensar nos 218 GB/s da eSRAM, ele pode perfeitamente passar para os 320 GB/s da GDDR5 da X. Mas se ele precisar dos 320 GB/s, como se garante que ele venha alguma vez a correr na eSRAM, mesmo que com cortes? Isso requereria na mesma optimizações na One pois os 218 GB/s não são uma largura de banda livre, e na realidade, por norma a eSRAM só dá metade desse valor, sendo preciso ter-se as escritas e as leituras a ocorrerem em simultâneo para que esse valor seja atingido, algo que requer optimizações diversas. Se só tivermos escritas ou só leituras, isso é irrelevante na X, mas na One isso atira a largura de banda da eSRAM para os 109 GB/s. E as situações deste género são tantas que o referido pela Playground games é aparentemente incompreensível. Aliás se o a ferramenta uniformizada fosse, como se dá a entender, capaz por ela de optimizar de forma ideal, falar-se de plataforma líder de desenvolvimento não faria sentido!

Para além do mais, repare-se que a Playground na resposta usa o termo Xbox One no sentido de plataforma e não como referindo-se à consola base, o que quer dizer que no fundo, salvo má tradução das fontes (e são várias com as mesmas palavras), não abordou na sua plenitude a questão colocada.

Tudo isto dá o que pensar sobre qual o futuro que a Microsoft pretende dar à Xbox One, mas interpretações à parte, o certo é que ver uma equipa a trabalhar num exclusivo First Party da consola e a admitir que a plataforma de desenvolvimento não é a base, mostra bem que as prioridades da Microsoft já não estão na sua primeira consola. Seria de esperar que perante esta situação a Microsoft tivesse imediatamente vindo a público deixar entender que a Xbox One continua a ser a sua prioridade e que a consola não está relegada para segundo plano. Mas por inércia ou outro motivo, isso não aconteceu, e a Microsoft deixou passar esta mensagem sem correcção.

O certo é que a Microsoft certamente terá noção que na altura em que este jogo estiver pronto a Sony terá já lançado a PS5, e nessa altura quererá puxar o máximo pela sua Xbox One X de forma a não ficar muito para trás. E isso será o que realmente está por detrás de tudo isto!