Nesta geração será que as diferenças no hardware continuarão a não fazer a diferença?

Ao bom estilo da Nintendo, um representante da Microsoft referiu recentemente que as diferenças de performances entre a Ps4 e a Xbox One não farão a diferença, e que são os jogos que contam. Essa é uma ideia que a Nintendo sempre defendeu. Mas será que ainda é bem assim.

consolas

Analisando o passado há uma realidade evidente. Até hoje, nunca a consola mais potente foi a mais vendida.

Isto é um facto. E tal parece dar razão a argumentos que dizem que são os jogos que fazem as consolas e não o hardware. E como sabem, dada a realidade das coisas,  essa sempre foi igualmente a nossa opinião.

Então porque escrevemos este artigo?



Porque a analisando o passado podemos perceber os reais factores que levaram a essa realidade. E apercebemos-nos agora que nesta geração a maior parte deles não existem!

As consolas começaram em 1950 com a Magnavox. Mas foi apenas a partir da quinta geração de consolas que o mercado atingiu uma expressão digna desse nome. Tratou-se da geração PS One que cimentou o caminho para o mercado global de consolas e criou as fundações para aquilo que temos hoje.

Ora a PS One tinha uma adversária de peso. A Sega Saturn! Tratava-se de uma consola com dois processadores e que esmagava completamente as performances da PS One.

SEGA SATURN VS PS ONE

Na era PS One essa consola dominou e criou pela primeira vez a ideia que se usa agora de que o hardware mais potente não implica a consola mais vendida e de maior sucesso.

A questão aqui é: Mas porque motivo a Saturn, mais poderosa, não vendeu e a PS One foi a vencedora.

O grande problema desta era não se tratou de suporte. A Sony era uma novata no mercado das consolas (entrou em 1994), e a Sega estava no mesmo desde 1985, sendo que já tinha uma base de fans de experiência e de jogos de sucesso que a PS One não possuía.
O grande problema foi a dificuldade em programar para a Saturn. Estávamos em 1994, os sistemas com mais do que um processador eram inexistentes, mas a Saturn possuía um sistema que para se colocar na totalidade das suas performances teria de colocar dois processadores em funcionamento paralelo. E em 1994 não havia equipas de programadores que soubessem explorar a consola, e nessa altura os SDK (kits de desenvolvimento) eram muito fracos.

O que se acabava por ver era que os programadores programavam para a PS One e convertiam para a Saturn. A consola usava apenas um dos seus processadores e corria versões adaptadas e muitas vezes reduzidas dos jogos PS One. Assim sendo, na perspectiva do utilizador,  não havia razões para se preferir a Saturn sobre a PS One e o mercado acabou por optar por esta última.

Por outras palavras, a PS One venceu a Saturn porque a consola da Sega apresentava uma arquitectura demasiadamente complexa para a época e como tal não teve o suporte que merecia.

XBOX vs PS2

Aqui a situação era inegável. A XBox era bastante mais poderosa que a PS2. Mas a PS2 vendeu mais e tornou-se na consola de maior sucesso de sempre. O que levou a isso? Seria isto a prova que o hardware mais potente não é necessariamente o melhor?

Na realidade não! A Xbox era mais fácil de programar e era mais poderosa. Mas não possuía o nome Playstation por trás e só entrou no mercado 2 anos depois.

Quando a Xbox entrou no mercado a Playstation possuía já uma base de utilizadores bastante respeitável e que dava continuidade ao grande sucesso da PS One. Os programadores apoiaram a Xbox que até tinha jogos melhores que a PS2, mas no entanto a base de utilizadores da PS2 era motivo para que muitos optassem por a apoiar exclusivamente devido às fracas vendas expectáveis na Xbox. E aqui começou a guerra dos exclusivos, com a Sony a conseguir para si grandes jogos que não existiam na Xbox e a aumentar ainda mais a sua base de utilizadores.

Ou seja, o que ditou o mercado foi a base de utilizadores, o nome da consola e o apoio dado à mesma. Mais uma vez a consola mais fraca ganhou por circunstâncias diversas que nada tinham a ver com a sua potência.

Wii vs Xbox 360 vs PS3

PS3 e Xbox 360 eram claramente as consolas mais poderosas desta geração. A PS3 era teoricamente a mais poderosa das três, e apesar de na recta final a PS3 parece posicionar-se para conseguir o segundo lugar das vendas, o que vimos durante a maior parte da duração desta geração foi a Wii como líder e a Xbox 360 como segunda. Uma inversão total da questão das performances, com a consola mais poderosa em último e a mais fraca em primeiro.



Este parece o exemplo perfeito para provar que a potência não faz a qualidade das consolas. O que como sabemos é efectivamente verdade!

Mas a questão é que aqui houve igualmente outros factores a serem ponderados.

A Wii vendeu mais, mas não por ter os melhores jogos. Longe disso! Poderá ter jogos que agradam mais a certos segmentos, mas grandes jogos unânimemente reconhecidos, foram poucos

A Wii vendeu mais por ser inovadora. Apresentou pela primeira vez controlos de movimento que eram suportados em todos os jogos, e assim tornou-se atractiva a uma parte do mercado que anteriormente nem olhava para as consolas. Esta conjugação de factores tornou a Wii única e deu-lhe a coroa desta geração. Foi a consola mais vendida, mas longe de ser a melhor ou de possuir os melhores jogos. O factor inovação foi a chave do seu sucesso!

Resta-nos a Xbox 360 e a PS3.  Como se explica aqui?

Bem a Microsoft apercebeu-se do que aconteceu com a Xbox original, pelo que com a Xbox 360 lançou a Xbox um ano antes da PS3, de forma a que esta não tivesse concorrência e pudesse criar a base de utilizadores que faltava à Xbox original. E essa foi uma excelente jogada da Microsoft que compensou.



Mas o pior foi que a PS3 se revelou bastante complexa de programar. Os jogos de primeira geração pouco ou nada eram superiores aos da PS2, excepção feita à resolução. Obter o poder do Cell era um problema de grandes dimensões que se reflectiu tremendamente na qualidade dos jogos lançados onde as versões Xbox foram quase sempre melhores. Somente com equipas especializadas e em exclusivos víamos aquilo que o Cell poderia mostrar.

O factor complexidade da arquitectura revelou-se assim decisivo.

Xbox One vs PS4 vs Wii U

Quanto à actual geração tudo o que possa ser dito são especulações. Mas esta geração é muito peculiar em alguns aspectos.

A inovação dos comandos de movimento da Wii deixou de ser uma realidade, sendo que actualmente todas as empresas possuem soluções para algo do género. As novidades introduzidas com o segundo ecrã da WiiU existem igualmente nas restantes consolas, e aquilo que vemos é uma WiiU com um processador mais complexo, uma arquitectura diferente e com menos poder de processamento. E se tal poderia não ter um peso tão grande como actualmente tem, o facto de a Xbox One e PS4 usarem uma arquitectura X86, algo a que os programadores estão habituadissimos, coloca a WiiU como sendo a consola problemática. Desenvolver para as outras é fácil, mas para a WiiU é preciso equipas separadas e optimizações diversas. De todas as consolas a WiiU é certamente a mais difícil de programar e as suas restrições de processamento em nada ajudam.

Já quanto à PS4 e Xbox One nada as distingue. Basicamente são a mesma consola, com o mesmo hardware e APIs compatíveis. A única diferença é que uma é mais poderosa que a outra.

E é aqui que consideramos que a actual geração é radicalmente diferente de todas as outras.

A nível de dificuldade de programação e arquitectura diferente é a consola mais fraca que sofre. Já a nível das mais potentes, ao serem iguais e usando a arquitectura mais conhecida do mundo, não há qualquer motivo para que a PS4 não se imponha naturalmente.

A única situação que poderá fazer a diferença são os exclusivos. Bons exclusivos poderão significar vendas, mas há que perceber até que ponto se pode alimentar fracas vendas com exclusivos que custam dinheiro para serem isso mesmo… exclusivos. Afinal há que compensar os programadores pela perda de receita que teriam se o jogo estivesse disponível em outras plataformas, pelo que estes jogos poderão vender consolas, mas não são os mais rentáveis.

O certo é que se a Xbox não apresentar bons argumentos nos jogos genéricos, as vendas irão sofrer. E com duas consolas tão iguais, isso é algo previsível. Poderá não ser verdade, mas neste momento não há factores para se pensar de outra forma.

Parece por isso que actualmente dizer-se que o hardware não interessa é cada vez mais apenas… uma crença. Há uma vontade grande que essa realidade se mantenha, mas o facto é que desta vez, mais do que nunca, poderá ser difícil que isso aconteça.

 



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