O homem que foi ao restaurante – ou um paralelo entre um restaurante e o serviço móvel de Internet

Era uma vez um homem que procurava um restaurante onde pudesse fazer as suas refeições diárias.

E querendo que esta situação não lhe pesasse muito na carteira, mas que lhe fornecesse igualmente refeições de qualidade, o homem analisou todos os restaurantes da zona de forma a ver o que podia oferecer o melhor serviço.

No entanto as ofertas não eram todas iguais. A capacidade dos diversos restaurantes para prestar um bom serviço variava, e de acordo com informações dos colegas o restaurante ideal seria um restaurante que servisse rodízio de bifes pois sendo o homem um amante de carne, apenas esses poderiam naquela zona garantir que o serviço prestado estava de acordo com as suas necessidades. Um bocado à semelhança do que acontece com as operadoras de serviços móveis de Internet, que apesar de todas anunciarem a mesma coisa, nem todas possuem a mesma qualidade de serviço em todas as zonas. E aqui podemos comparar a escolha dos restaurantes de rodízio com a escolha de um dos operadores existentes.



Ora uma vez com o restaurante de rodízio de bifes escolhido havia de ver a oferta do mesmo.

E o restaurante tinha várias ofertas no menu. Algumas delas tinham um serviço à mesa bastante lento e o que podia comer era limitado, mas outras garantiam um fluxo de pratos bastante rápidos e sem limites para o que ele conseguisse comer na sua hora de almoço. Um bocado como os pacotes móveis de Internet de baixa velocidade e tráfego limitado e os de alta velocidade e tráfego ilimitado.

Infelizmente, em conversa com o dono do restaurante, o mesmo afirma-lhe que para lhe garantir o preço do menu o cliente teria de oferecer ao restaurante uma fidelização. Isto é, teria de comer por ali no período mínimo de um ano, sendo que apenas poderia cancelar esta fidelização nos primeiros 15 dias. Algo semelhante ao que acontece com todos os contractos de Internet.

Mas dado que a oferta do restaurante era tão boa, o homem em causa optou por um menu de rodízio que lhe garantia uma afluência de pratos à mesa a alta velocidade e sem limites sobre o que poderia comer. Uma escolha que também podemos fazer nos diversos pacotes de oferta dos ISP móveis.

Ora durante os primeiros 15 dias a coisa correu maravilhosamente. A comida era boa, os pratos chegavam à mesa a um ritmo alucinante e o homem efectivamente comia como um louco.

Mas após os 15 dias a qualidade de serviço desceu tremendamente. A comida não era comparável e o fluxo de pratos era muito inferior. Curiosamente o mesmo que acontece quando aderimos a pacotes de net móvel.

O pior foi que no terceiro mês de utilização do restaurante o homem senta-se à mesa e apenas lhe servem dois pãezinhos com manteiga. Uma situação que se repetia todos os dias apesar de o cliente estar a pagar por um menu de topo com comida ilimitada e os pratos a chegar a grande velocidade.

Questionando o restaurante sobre o motivo desta situação o homem veio a saber que no mês anterior tinha comido mais de 15 bifes, e que a entidade reguladora dos restaurantes, a ANAREST, tinha limitado o número de bifes por cliente, por mês, a 15. E infelizmente o restaurante não podia fazer nada quanto a isso.

Naturalmente o homem reclamou… então pagou por um menu em que podia comer o que quisesse e afinal o menu limitava-lhe o consumo de bifes a 15 por mês… Mas porque raio?

Ainda por cima a ANAREST tal como a ANACOM no tocante às telecomunicações, tinha como principais objectivos a promoção da concorrência, a transparência nos preços e nas condições de utilização dos serviços, bem como o desenvolvimento dos mercados e das redes de restaurantes e a defesa dos interesses dos cidadãos. Onde é que estava aqui a defesa do cidadão numa atitude imposta por um entidade que o devia defender?

O pior é que o restaurante afirmava que lhe garantia a qualidade de serviço e que os dois pãezinhos com manteiga era suficientes para que ele não morresse à fome. Isto apesar de o cliente continuar a pagar pelo menu ilimitado de bifes e estar a comer pão.

O homem reclamou alegando que tal não estava escrito em parte nenhuma, mas o restaurante apontou-lhe para uma folha afixada na porta das traseiras e semi coberta com uma lata do lixo onde se referia algo do género: “se o cliente passar os 15 bifes consumidos por mês o restaurante pode-lhe restringir o acesso, garantindo manter-lhe dois pãezinhos com manteiga como serviço mínimo”.

Confrontado com algo que desconhecia na altura do contrato e revoltado com o uso abusivo da palavra “consumo ilimitado” descrita no menu que tinha acordado com o restaurante, o cliente bem protestou, mas entretanto o tempo passava-se sem que o cliente pudesse fazer algo mais do que continuar a comer os dois pãezinhos com a manteiguinha pois a quebra do contrato de fidelização obrigava-o a pagar todas as refeições durante um ano. Mesmo que ele não as tivesse comido!



Mas estando o novo mês para entrar e dado que a restrição falava em limites mensais, o cliente descansou… Era só ter o cuidado de não comer mais de 15 bifes por mês, mas ao menos com o novo mês a entrar teria direito ao menu completo novamente. Se o limite é mensal, a restrição também teria de o ser!

E o novo mês começa com o homem cheio de vontade de usufruir de uma grande refeição, e conforme havia contratado senta-se à mesa para comer… E lá vem os pãezinhos com manteiga para a mesa…

Mas que raio… então o corte foi efectuado quando comeu mais de 15 bifes, mas com a entrada do novo mês o menu deveria ser reposto, o que não aconteceu! O que se passa?

Nova conversa com o restaurante e vem a saber que a restrição devido ao ter passado o limite de bifes se aplica por 30 dias… a contar da data da ofensa.

Quer isto dizer que o homem afinal não tem direito às suas refeições na entrada do novo mês, mas apenas quando se passarem 30 dias sobre a ofensa… OMG… O homem desespera. Paga por uma refeição de rodízio de bifes sem limite de pratos e servem-lhe pão com manteiga… Onde raio é que se refere que tem de ter uma restrição de 30 dias sobre a data da ofensa? Sendo a restrição aplicada ao que come ao mês não deveria ser isso feito só até ao fim do mês?

Infelizmente é-lhe explicado que são regras internas do restaurante seguindo recomendações da ANAREST. É assim que as coisas funcionam e que a alínea meia fanhosa e pouco clara que se encontrava afixada na porta dos fundos e coberta pelo caixote do lixo referia isso, coisa que o cliente, por muito que a leia e releia, não consegue encontrar.

Reclamação após reclamação o caldo está entornado. Não há clima entre restaurante e cliente, mas o restaurante parece não se importar com o seu bom nome e imagem. Afinal há mais otários de onde aquele veio!

Desesperado, com contactos diários e reclamações, o cliente nada consegue, e o tempo passa até que o prazo dos 30 dias finalmente passa.

Triste com tudo isto, e prometendo a si mesmo não se manter como cliente daquele restaurante mal o contrato de fidelização termine, o cliente aguenta sob ameaça de ser levado a tribunal e lhe serem cobradas todas as refeições do ano ao preço contratado, preparando-se para deitar o sucedido para trás das costas por uns tempos e usufruir da refeição que lhe será prestada. Mesmo consciente que a sua qualidade não é idêntica à que usufruiu nos primeiros 15 dias.

Mas sentando-se à mesa para comer, os pãezinhos são-lhe apresentados novamente… MAS QUE RAIO SE PASSA AQUI?

É que o problema não está sanado. No mês em que foi cometida a infracção o cliente comeu 45 bifes, ou seja comeu mais 30 bifes do que o permitido. Mas como nos meses seguintes apesar lhe terem sido servidos pãezinhos com manteiga o consumo dos pães equivaleu-se a 12 bifes por mês e como tal a média ainda não regularizou nos 15 bifes por mês e assim sendo terá de ser-lhe mantida a restrição. É a ANAREST a entidade reguladora que assim obriga o coitadinho do restaurante a agir. E eles que até preferiam dar bifes ao cliente do que o obrigar a pagar por bifes dando-lhe pão com manteiga… Coitados.

Quer isto dizer que durante muitos e muitos meses o cliente terá de comer pãezinhos com manteiga e beber apenas um copozinho de água, mas pagará por um rodízio completo de bifes sem limite de pratos anunciado como coma o que quiser (ilimitado), e que na prática o limita a 15 bifes por mês.

Não fosse a fidelização e o pobre homem mudava de restaurante no mês seguinte. Mas o restaurante aproveita-se do contracto de fidelização existente para tomar uma posição dominante no processo… E o cliente que coma os pãezinhos e pague o rodízio completo.

Digam-me, vocês aceitavam isto? É que é isso que acontece com os contratos de Internet móvel, e esta história foi baseada num caso real de um amigo e que está a ocorrer com a Optimus Kanguru e onde viu, e continua a ver, a velocidade de acesso contratada em 7,2 Mbits reduzida por vários meses para 128 Kbits por ter realizado 45 gigas de tráfego em um mês e ainda não ter obtido a média de 15.



Mas pior do que tudo é que a Optimus não lhe oferece uma solução para o problema, sendo que a a única alternativa é pagar pelo pacote que não usufrui durante os meses que forem necessários para a regularização da média.

Se alguem defende isto, então passe no restaurante aqui da história que lhe servimos pão com manteiga ao almoço, e ao preço de rodízio de bifes, durante vários meses, e aí veremos se ainda pensam da mesma maneira!

 

 



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