O que define uma obra prima

A discussão instalou-se há dias nos comentários da PCManias. The Last Guardian é ou não uma obra prima? A crítica em geral acha que sim, mas algumas pessoas acham que não! Infelizmente, para alguns a definição de Obra Prima não é algo aberto à discussão e há parâmetros universais que as definem, parâmetros esses, que The Last Guardian cumpre na integra.

Antes de pensar em escrever este artigo consultei dois amigos, um deles é artistas (pintor e escultor) e o outro designer. E dadas as suas formações nestas áreas pedi aos dois uma definição daquilo que consideram como parâmetros essenciais para se definir uma obra prima.

O primeiro, o meu amigo pintor/escultor enumerou os seguintes pontos:

  • É um retrato da personalidade do artista e de toda a sua obra
  • É um esforço notório e claro de sair para além da mediania
  • Tem algo “extra”
  • Transporta as pessoas de alguma forma
  • Tem um efeito psicológico nas pessoas
  • É fundamental para a história e ficará marcado nela

O meu amigo designer acrescentou ainda uns pontos que considerei igualmente válidos

  • Apresenta algo único que a distingue
  • Toca as pessoas
  • É a melhor ou das melhores obras do seu autor
  • Não é necessariamente perfeita, mas é algo primoroso e inovador

Naturalmente que há a necessidade da humanidade de definir uma série de padrões para a definição de algo. Não podemos nas coisas cair no erro de julgar baseando as coisas na mera opinião. Porque o comercial e o popular é aquilo que vende, mas não necessariamente aquilo que se distingue! E com a banalização do termo na nossa linguagem, a dificuldade

Na altura em comentários dei o exemplo do filme “Os Vingadores” que retrata a história de vários super herois da Marvel. E não tenham dúvidas que colocar esse mesmo filme em exibição paralela com uma das grandes obras primas do cinema, “o Sétimo Selo” de Ingmar Bergman, levaria a que a sala com este último filme tivesse uma percentagem mínima de pessoas a ver o filme durante a sua exibição. Já “Os vingadores” teriam certamente semanas e semanas de exibição com a sala cheia.

Esta realidade é notória todos os dias quando olhamos para a TV. Os programas de grande audiência são os reality shows, e programas como o “Você na TV” ou outros similares. Programas que apesar de populares e de entreterem são autêntico lixo televisivo.

E quando em Portugal vemos cantoras como a Maria Leal,com uma agenda de espectáculos cheia, percebemos que caso entregássemos a avaliação da qualidade de algo ao gosto popular, estávamos bem desgraçados.

Se virem o video presente no link anterior cima percebem que a presença e quantidade de acertos criado pelo software “AutoTune” para dar harmonia à voz é absolutamente gigantesco. Caso não tenham noção do que este software faz, eis algumas cantores com grande voz, mas com e sem o “AutoTune” e perceberão depois do que estou a falar.

Aliás, se fossemos pelo gosto popular a Torre Eiffel tinha ido abaixo. Após a exposição universal de 1889 para a qual foi construida, a torre Eiffel era vista pela população como um autêntico “mamarracho” e estava previsto ser demolida. Não fosse a primeira guerra mundial e o facto de a torre se ter relevado fulcral para a colocação de pratos que interrompiam as comunicações rádio alemãs, ela tinha mesmo sido demolida.

Actualmente é um, se não mesmo o monumento mais famoso de todo o mundo e agora, aceite de forma quase universal, como sendo uma obra prima!

Mas temos outros exemplo. Já viram a Mona Lisa? Eis uma imagem:

Cremos que ninguém irá agora aqui discutir se este quadro é ou não uma obra de arte. É-o, e tal é aceite globalmente! Mas já viram vem o que temos ali?

A imagem tem um link para uma versão em alta resolução da foto para que a possam ver em mais detalhe.

Para começar o cabelo. Encaracolado ou liso?

Temos zonas onde ele é claramente encaracolado como nas frentes. Mas reparem nas traseiras e na testa, e o mesmo é liso. Afinal em que ficamos?

Agora olhem 30 segundos para uma nova janela vazia do browser com um fundo branco e depois olhem para a imagem. A personagem está a sorrir ou esta séria? Esta é uma das mestrias deste quadro e esta dupla sensação é transmitida pelos olhos, em que cada um deles possui um contexto diferente, e nesse sentido é possível vermos as duas coisas. É no fundo uma imperfeição, mas que ajuda a definir a mestria do quadro.

Reparem igualmente no cenário à esquerda e à direita da cabeça. Ele nem sequer se encaixa numa única imagem. Há ali dois cenários completamente distintos.

Naturalmente não vou agora abordar os mistérios deste quadro, mas a verdade é só uma. Ele possui imperfeições face à realidade! E isso só prova uma situação, a de que uma obra prima não tem necessariamente de ser algo perfeito, mas sim algo primoroso! Um dos pontos referidos pelo meu amigo.

Vamos então enquadrar The Last Guardian nos vários pontos acima referidos:

  • É um retrato da personalidade do artista e de toda a sua obra

Cremos que aqui ninguém tem dúvidas quanto a isso. Fumito Ueda caracteriza-se por este estilo de jogo, e The Last Guardian não foge minimamente a essa realidade. É um jogo que, como poucos, reflecte claramente a personalidade do seu autor. Aliás jogos deste género só mesmo vindos de Fumito Ueda!

Diz-se que a personalidade de uma pessoa é o somatório das suas vivências, e daí que podemos perceber pelo historial de Fumito Ueda que realmente a sua personalidade e aquilo que ele nos transmite nos seus jogos é fruto das suas vivências!

Fumito Ueda é um criador de videojogos que deve ter agora perto de 40 anos, e formado em 1993 pela universidade de Osaka. É uma personalidade fechada e reservada, dando poucas entrevistas. Como adolescente era um grande fan do Commodore Amiga, e tremendo fan de Flashback e Another World, dois jogos baseados em mundos ficcionais e misteriosos, onde já neles o diálogo não existia, e as mensagens eram passadas por gestos e atitudes. Acredita-se até que a forma de contar as suas histórias tenham sido tremendamente influenciada por estes dois jogos.

Diz quem o entrevistou que Ueda é brincalhão, mas com uma presença algo frustrante. Pondera as questões com cuidado, sendo educado e focado, sendo que recusa as interpretações ao seu trabalho e recusa partilhar as suas influências, fornecendo um ar de improviso constante.

Curiosamente Ueda teve uma intervista biográfica realizada à 10 anos pela revista Japonesa Continue, onde revelou que apesar de ter estudar arte na Universidade, ele especificamente decidiu especializar-se em arte conceptual como a sua componente prática principal. Esta componente de arte associada à sua maneira de ser são o motivo pelo qual Ueda cria os seus mundos num tom melancólico e misterioso, mas de grande beleza. Ueda é quase mitificado  pelo seu trabalho, mas mantêm uma postura auto depreciativa, não definindo os seus jogos de uma maneira fixa, e rejeitando interpretações fixas, dizendo apenas que as pessoas devem jogar, e no fim concluir por si mesmos aquilo que melhor se lhes aprouver.


Parece-nos claro que o estilo de Ueda é claramente fruto da sua maneira de encarar a vida e das suas vivências, definindo-se assim como um retrato da sua personalidade. Pelo menos a parte que dá a conhecer ao público!

  • É um esforço notório e claro de sair para além da mediania

Não só The Last Guardian sai da mediania, como inova. É um jogo único na sua abrangência, e vive da dualidade de personalidades de duas criaturas que são inimigas mas que necessitam de unir esforços para sobreviver, criando pela necessidade da interdependência uma amizade enorme. Em todos os meus anos de videojogos nunca joguei nenhum jogo que conseguisse tal como The Last Guardian consegue.


  • Tem algo “extra”
  • Apresenta algo único que a distingue

Podem parecer a mesma coisa. Mas não são! Se o segundo inclui o primeiro, o primeiro não inclui necessariamente o segundo!

Já foi dito em cima. Nunca nenhum jogo abordou esta temática. É inovador e mesmo único, tendo  por isso algo “extra” e simultâneamente algo único que o distingue! Não há nenhum jogo que se lhe compare e sabe tocar o coração com a sua história. É um jogo onde a história faz parte integrante do mesmo.

Mas quanto a este ponto deixo-vos com uma descrição feita pelo nosso leitor Bruno Ribeiro, que explica isto muito bem:

Tu controlas um rapaz, entre 10 a 13 anos que acorda, sem saber como, numa gruta ao lado de um monstro enorme e muito mal humorado.
Problema: tens que voltar para casa, mas depressa descobres que, para além da gruta, a tua prisão é uma fortaleza gigantesca, à qual não consegues ver o fundo, ou o cimo, e que precisarás da ajuda daquele monstro para sair dali. Não só isso, mas não estás sozinho.
Há guardas tenebrosos e inumanos a guardar o local, que não te deixarão sair dali e contra os quais não poderás fazer nada, contando apenas com a criatura para te defender
(Sim porque a tua personagem infelizmente não veio com o último modelo de fato de combate, nem com a última metralhadora com motoserra embutida ou tecnologia alienígena de última geração– facto que muita gente considera uma falha imperdoável).
Por isso, o jogo convida-te a criar uma relação com aquela criatura, ganhar-lhe a confiança, e não é nada fácil, porque o bicho está ferido, e vai te deixar várias vezes inconsciente quando te aproximas.

Conseguido isto, é aqui que entra a mecânica do jogo (que muita gente, habituada a ver ordens cumpridas com precisão militar em vários shooters, falhou em entender):
o jogo desafia-te a usares toda a tua astúcia e intelecto de modo a conseguir entender o cenário que te rodeia para progredires (chamam-se puzzles) e para isso terás que aprender a comunicar com aquela criatura.
O problema é que a criatura tem uma personalidade muito vincada: ora amua, ora quer brincar, ora te ignora. Há quem diga que isto é má IA.
Não podiam estar mais enganados, porque quando a criatura faz isso tu depressa vais aprender, porque o jogo te obriga a isso, a escutá-la. É que o bicho tens uns instintos do caraças e o sítio onde te encontras não é nenhum parque infantil. Várias foram as vezes em que foi a criatura indicar-me o próximo passo a dar, ou a avisar-me de uma armadilha.
É este o objetivo e a mecânica do jogo, aprenderes a comunicar com um ser virtual mas inteligente e vivo, para progredires num ambiente que tem tanto de belo como de hostil.”

Não há absolutamente mais nenhum jogo que seja como The Last Guardian em diversos aspectos, e poucos são os que tocam o jogador da mesma maneira, especialmente usando as mesmas ferramentas. Logo é claramente único! E é na forma como este jogo transmite as emoções e sentimentos que ele se destaca como nenhum!

  • Transporta as pessoas de alguma forma

Este é um ponto que a maior parte dos jogos felizmente consegue, o transportar-nos para um mundo de fantasia e fazer-nos vier o mesmo. Neste ponto, talvez pelo tipo de arte interactiva que são os videojogos e que conseguem ir mais longe que outras formas de arte, este ponto seja o mais fácil de ser atingido. Nem todos o fazem com a mesma mestria e mistério, ou num mundo tão belo e hostil como este, trazendo à tona sentimentos tão puros como a amizade, mas em termos gerais fazem-no.

  • Tem um efeito psicológico nas pessoas
  • Toca as pessoas

Mais uma vez podem parecer a mesma coisa, mas não são!

Quem não fica tocado com o final deste jogo, será certamente insensível. Não estamos a dizer que será necessário verter uma lágrima, mas o jogo toca nos sentimentos mais profundos do jogador ao deixar que se consiga sentir ao longo do jogo uma grande empatia com ambas as personagens. No fundo ter uma história sentimental não chega, é preciso que as pessoas se consigam ligar às personagens. E este jogo, não sendo jogado como mero jogo de plataformas, mas vivendo-o e sentindo a mensagem que nos transmite, nos toca no ámago da alma. O jogo permite viver os sentimentos destas personagens. Inicialmente algo de interesse, mas que ao longo do jogo passa a amizade pura e sincera. é por isso que este jogo não só nos toca, como nos mexe com o nosso psicológico e com os sentimentos, sendo que no fim deixa-nos a meditar sobre a amizade e tudo o que envolvia o jogo e a sua história.

É a mestria numa história contada com apenas algumas palavras, e onde os sentimentos não são descritos, não são transmitidos por beijos e abraços, mas se sentem e se vêem em pequenos gestos, atitudes e mesmo sacrificios.

  • É fundamental para a história e ficará marcado nela

Ico ficou, Shadow of the Colossus ficou, e The Last Guardian tambem já lá está! São jogos únicos e sem paralelo no mercado. São basicamente diferentes! Os dois primeiros ficaram na história, e este ficará igualmente! A aceitação da qualidade do jogo foi tal que, mesmo não tendo sido um campeão de vendas, e de ter saído apenas a 6 de Dezembro, o jogo mesmo assim foi um dos que mais votações de jogo do ano venceu! E tal só pode ser considerado um feito, uma vez que comprova que marcou mesmo quem o jogou!

  • É a melhor ou das melhores obras do seu autor

Fumito Ueda tem apenas três jogos em que assumiu a direcção. E todas eles são excelentes por si, sendo difícil escolher um como o melhor. Mas neste caso, com apenas três, a questão sobre se será “das melhores obras”, nem sequer se coloca.

  • Não é necessariamente perfeita, mas é algo primoroso e inovador

Nunca The Last Guardian foi considerado perfeito. O jogo tem inúmeros defeitos e inclusive bugs. Mas é sem dúvida inovador e foi criado com primazia e amor. Não é um jogo para as massas, é um jogo para quem sabe apreciar! Como aliás todas as obras primas são!

Neste aspecto de sentimentos e emoções, comparo The Last Guardian apenas a um outro jogo, The Last of us. Ambos tocam no âmago dos nossos sentimentos de forma profunda. Naturalmente que quem está habituado a jogar shooters, e a  entrar por ali a torto e a direito, passando a experiência sem a sentir, pensando apenas na diversão, terá dificuldades em apreciar um jogo destes, onde mais do que o jogar pela diversão, se o tem de viver e sentir, absorvendo a mensagem que nos é passada.

Se alguém quiser depois disto apresentar argumentos palpáveis sobre o facto pelo qual The Last Guardian não deve ser considerado uma obra prima… faça o favor. Os comentários agora permitem isso mesmo e podemos, educadamente, discutir o assunto!

 

 

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Readers Comments (9)

  1. Cada pessoa recebe determinada obra de uma forma. Alguns veem de um jeito diferente o que outros veem como comum. Acredito que essa definição de obra prima é uma coisa muito pessoal de quem jogou.
    A crítica em geral acha que é um jogo de 82 no metacritic. É claro que notas representam apenas a opinião de um analista e estamos em dias em que análises são cada vez mais duvidosas. Mas ninguém que costuma comentar no PC Manias que acha The Last Guardian uma obra prima tem moral para concordar com o que eu acabei de falar sobre as análises, por que todos sem exceção se gabaram do 93 do Uncharted 4 e alguns usam a média do Metacritic para criticar jogos do qual não jogaram ou justificar que Halo e Gears of War estão cansados, ambos com notas iguais ou maiores do que The Last Guardian.

    Agora de uma forma pessoal eu sei que tem algo a mais em The Last Guardian que sai da zona de conforto e merece elogios, mas veja, eu também acho isso de Quantum Break. Um jogo que sai da zona de conforto do que dá certo no mundo atual dos games, conta uma história que te prende e tem personagens complexos mas, QB tem falhas na parte técnica, nada que influencie o game e sua experiência na verdade, mas elas existem merecem ser lembradas, e foram colocadas acima das qualidades do game, principalmente por pessoas que muitas vezes nem jogaram.
    The Last Guardian também tem falhas na parte técnica, e suas falhas não o colocam na galeria de obras primas do mundo dos games, e esse é o ponto onde machuca aqueles emocionalmente envolvidos com um jogo ou que precisam afirmar que os artistas mais talentosos do universo estão reunidos trabalhando para a Sony.
    De fato, existem artistas criativos e muito talentosos nos estúdios da Sony, novas franquias bem sucedidas e candidatos a sucesso instantâneo nos últimos anos tem saído de estúdios da Sony. Horizon Zero Dawn tem uma temática genial. The Last of Us aproveitou de uma temática que estava na moda para criar um game no nível de excelência que é, Uncharted pra mim é bobo e tem clima de filme de sessão da tarde classificação 12 anos, mas tem vários predicados que o colocam em um nível acima da média.
    Todos eles são apoiados por um forte componente técnico, algo que falta em The Last Guardian, e no mundo dos games a melhor das boas intenções por si só não fazem uma obra prima. Jogos foram feitos para jogar, boas histórias se contam em livros, jogos podem ter boas histórias, mas eles também precisam ter todo o resto.

    * Certamente logo virão as mesmas figurinhas de sempre me falar o quanto eu estou errado, sou parcial, to vestindo a camisa verde ou qualquer blá blá blá do tipo. As mesmas figuras que vão tentar invalidar qualquer argumento sobre a qualidade de Quantum Break com base em resolução, gráficos, número de vendas ou mecânicas de gameplay. Curiosamente as mesmas falhas de The Last Guardian.

    Obs: Dificilmente eu volto para ler respostas em comentários que criam polêmicas, primeiro por que eu geralmente sei quem responde, segundo por que eu geralmente não me importo com quem responde.

    • Não serei alguém que te vai criticar Fernando… Expuseste argumentos, e fizeste-o muito bem…

      Agora a questão que insisto é que as falhas não impedem uma obra prima de o ser. Tens o exemplo das imperfeições da Mona Lisa, e vê o Noite Estrelada do Van Gogh por exemplo (http://3.bp.blogspot.com/-HUCcCdGinpQ/VlbqiI6lyRI/AAAAAAAAB1c/FCjGt6VoM-E/s1600/imagen-starry-night-by-van-gogh-1ori.jpg), ou o Guernica do Pablo Picasso (http://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/08/guernica.jpg), ou o Grito do Edvard Munch (http://images.mentalfloss.com/sites/default/files/styles/article_640x430/public/ahh.png).

      Consegues verdadeiramente comparar isso com as pinturas da capela sistina (http://www.ucityguides.com/images/top10/sistine-chapel.jpg), com a escultura de David (http://www.ucityguides.com/images/top10/david.jpg). ambas do Miguel Angelo?

      Se fosses a ver, as duas últimas retratam fielmente a realidade, as outras são, comparativamente trabalhos que, face à realidade, não são perfeitos. Mas não deixam de ser obras primas.
      Uma obra não tem, e nunca teve de ser perfeita para ser Obra Prima.
      Quanto aos 82%, deves reler a questão da torre eiffel, ou o caso dos vingadores. No primeiro caso a população não gostava, e queria-a deitar abaixo, no segundo certamente os críticos cascariam bem no 7º selo ao acharem-no parado, lento, e a preto e branco. Ou seja, estás aqui a atirar para a opinião comum a definição de algo. E isso é o que o artigo refere… que não funciona assim, havendo parâmetros que avaliam as coisas.
      Gostes de caviar ou não, ele é uma especialidade… e não é porque há muitas pessoas que não gostam que deixa de ser…

      PS: Quantum Break de obra prima tem muito pouco… Queres ver os pontos que refiro em cima?

      – É um retrato da personalidade do artista e de toda a sua obra

      Não é… Quanto muito poderiamos dizer que a empresa lida com este estilo de jogos em time lapse à uns tempos. Mas não há sequer continuidade dos directores e produtores nos jogos da Remedy!

      – É um esforço notório e claro de sair para além da mediania

      Quantum Break tem elementos originais, e como todos os produtos faz um esforço, mas o resultado não é em nada diferente do que outros já fizeram. Não há nada de verdadeiramente inovador no jogo!

      – Apresenta algo único que a distingue
      – Tem algo “extra”

      Tem… a TV… 100 GB dela!

      – Transporta as pessoas de alguma forma

      Volto a dizer que os jogos quase todos fazem isto. É um parâmetro que se adapta mal aos videojogos. Por isso aqui a coisa poderia ser discutível e nem vou entrar por aqui!

      – Toca as pessoas
      – Tem um efeito psicológico nas pessoas

      Não estou bem a ver que o faça de uma forma profunda! Mas a história é bastante interessante e profunda e da o que pensar.

      – É fundamental para a história e ficará marcado nela

      Vê a listas com grandes jogos e verás ICO e Shadow of the Colossus lá! E irás igualmente no futuro ver lá o The Last Guardian. Já quantum Break…
      Relembro que the Last Guardian vendeu mal… e saiu quase no final do ano… e mesmo assim foi dos jogos que mais votações de jogo do ano venceu!

      – É a melhor ou das melhores obras do seu autor

      Quando muito poderia ser da Remedy… mas está longe disso!

      – Não é necessariamente perfeita, mas é algo primoroso e inovador

      Achas que no seu global é?

      • Levando para o lado artístico, eu concordo com você, são jogos que não devem ser comparados. Acho que não existe discussão sobre isso. Mas é uma forma muito romântica de analisar um jogo.
        Se eu esquecer que The Last Guardian é um game, eu posso concordar com essa visão. Mas fazer isso, é como negar a função básica e número um desse produto, ser um jogo de Vídeo Game.

        • Não deixo de concordar com o que dizes, pois estás a articular bem os argumentos. Mas a questão é que há obras primas em todas as áreas. Eu não estou a comparar The Last Guardian com as pinturas da Capela Sistina, até porque seria ridículo fazer isso.
          Mas em todas as artes há situações que se distinguem. Não é por serem melhores, não é por serem perfeitas. É pelos pontos que refiro em cima, pelo distinguirem-se, pelo marcarem, pelo ficaram na história, pelo inovar, pelo trazerem algo de novo e diferente. Basicamente porque surgindo do nada… ficam na história como referências.
          Isto acaba por ser transversal a todas as épocas. Pode parecer ridículo face aos jogos atuais considerar que, para a época, determinados jogos do Spectrum foram obras primas, mas isso não tem nada a ver. E podem ou podiam ter sido! Porque a definição de obra prima transcende isso tudo.
          The Last Guardian apenas se destaca no seu universo… porque de resto, nunca o verás a ser citado como algo que um dia constará na lista das grandes obras. Aliás nesse aspecto, Ico e Shadow of the Colossus estarão primeiros na lista por serem do mesmo autor e, apesar de tocaram por aspectos diferentes, se terem igualmente destacado.
          The Last Guardian não é o melhor jogo do mundo… longe disso. Não é o jogo que mais diverte, não é o estilo que mais agrade, e está longe de ser perfeito, com bugs e diversos problemas associados ao facto de ser um produto dinâmico.
          E esse creio que é o “medo” que as pessoas teem em assumir que o jogo é uma obra prima, o confundir isso com um jogo que é perfeito ou que consegue o objectivo dos videojogos, entreter, mais do que os outros.
          Não é!
          Mas distingue-se neste universo de uma forma que é clara, e daí o termo obra prima ter aparecido em quase todas as análises que o jogo teve, bem como ele ter tido as vitórias de jogo do ano que teve.
          Não porque era melhor que outros, mas porque marcou quem o apreciou, mais que os outros.

        • Não Fernando,… não é bem assim. Não te deves prender em comparações, ou em tentar arranjar paridades.É necessário ver o jogo pelo que é e pelo que tem.

          O que o Mário está a tentar dizer é que uma obra prima não tem que ser perfeita, aliás às vezes é a própria imperfeição que a torna no que torna.

          Não que isso seja o caso de The Last Guardian.

          O jogo tem Bugs, mas Bugs como qualquer outro jogo tem. Incluíndo Uncharted 4. Nada que o torne injogável.

          Relativamente à parte técnica que referes, a única coisa a apontar ao jogo são mesmos as quedas de fps, mas que em nada acabam por prejudicar a experiência. De resto, o jogo atinge um nível de excelência nunca antes visto.

          Chamo a atenção para a cena da figura. É um momento que dá um choque ao jogador e uma das melhores cenas do jogo (quem o jogou sabe do que falo). Mas para teres uma noção, quando entras neste bosque estás a sair pela primeira vez do interior está tudo a abanar ao vento – as àrvores, a erva no solo, é tão calmo é tão pacífico que só te apetece ficar ali.

          Mas aquilo a nível técnico é um primor: a paleta de cores, a vegetação, o som, e depois o próprio Trico que em nenhum momento perde o detalhe – deve ser uma das cenas intensas no processamento.

          Outra coisa – a AI do trico. Está muitíssimo bem conseguida, em todo o jogo.

          E em teceiro as animações. Eu nunca vi tamanho realismo em nenhum jogo.

          O que quero dizer é: The Last Guardian não é tecnicamente limitado – ele aliás é bem avançado e em diversos pontos.

          Seja como for, o ponto não é esse.

          The Last Guardian é considerado uma obra prima por muitos devido à forma como transmite uma mensagem ao mesmo tempo que é um jogo. Digamos apenas que se alguém quiser provar que jogos são obras de arte, não tem melhor exemplo que este.

          Eu sempre considerei que arte é sobre a transmissão do abstracto, do que não podemos descrever numa palavra, no que precisamos de retratar para descrever, seja usando palavras, seja usando cores, ou capurando imagens ou expressões. Mas isto é apenas uma definição.

          The Last Guardian é isso mesmo. Como disse na outra vez, é um jogo sobre amizade, não porque a história é sobre amizade mas porque a gameplay é sobre amizade – é o único jogo que eu vi que te orbiga a estabelecer e a comunicar com outro ser. Esse é o cerne do jogo, e a mecânica básica.

          Ueda conseguiu criar um jogo sobre um sentimento, sobre o desenvolver e construir de uma relação. Tudo o resto que ali está – a história, o cenário, tudo isso apenas ajuda ao processo. Imagina que te metiam numa sala com outra pessoa e a pintavam de modo a manipular a forma como interagias com ela.

          Mas não é por isso que deixa de ser um jogo. É um jogo, um videojogo.

    • @Fernando muito boa sua resposta e realmente esta de parabéns.
      Concordo com uma boa base que voce disse. abracos

    • Está descansado que eu não te venho rebentar a bolha rapaz, tenho mais que fazer, só te vou fazer um reparo:

      A culinária em si é uma arte, um bife com batatas fritas nunca se pode comparar a um Tournedos Rossini, um é vulgar, o outro é uma autêntica obra de arte, uma obra-prima da alta cozinha francesa, assim como Quantum Break e The Last Guardian, no entanto são o mesmo, um produto cuja principal função é ser comida, é inegável, mas olhar para um Rossini como mera comida e pior, comparar com um simples ”bitoque” é no minimo digno de chacota tal a falta de bagagem cultural.

  2. É realmente Fumito Ueda deixou mais um legado de sua percepção de artista nos games.Lembro-me de ICO jogo com características únicas que o fizeram um grande jogo(mesmo não tendo vendas satisfatórias)ou Shadow of the Colossus que com ideologia nos transportou para algo além de um simples galope(Arom éra como se fosse um amigo inseparável)que por muitas vezes me fez pensar(aquele pequeno galope no final do jogo onde Arom colocou sua vida no lugar de seu mentor)uma sensação de isolamento momentâneo que fez perceber que naquele momento estava sozinho.Não joguei Last Guardian,mas pelo fato somente das demonstrações da Sony ao longo dos anos se percebe a majestura deste game.Pelo menos ao meu ver é uma obra prima que te faz olhar para ela e admirar o trabalho do seu autor a tamanha dedicação.

  3. Para mim a maioria dos jogos são obras de arte,os jogos que eu não considero arte são jogos como Leisure Suit Larry ou quase qualquer um q tenha zumbis e/ou terror Dying light é um jogo bem legal,divertido mas eu não vejo beleza ou sentimento em destroçar zumbis,por isso não o considero arte,as poucas exceções de terror e zumbi que coloco como arte eh tlous que mostra um sentimento,e de terror posso citar Bioshock que envolve filosofias e o design da cidade,mas tem jogos que se destacam quando se define arte são o caso de Heavy Rain,Beyond two souls,legend of Zelda etc e nesse etc eu incluo qualquer jogo do Fumito Ueda,que passa sentimentos nos seus jogos com o mínimo de informação possível que nem os quadros dos pintores famosos

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