O que define uma obra prima

A discussão instalou-se há dias nos comentários da PCManias. The Last Guardian é ou não uma obra prima? A crítica em geral acha que sim, mas algumas pessoas acham que não! Infelizmente, para alguns a definição de Obra Prima não é algo aberto à discussão e há parâmetros universais que as definem, parâmetros esses, que The Last Guardian cumpre na integra.

Antes de pensar em escrever este artigo consultei dois amigos, um deles é artistas (pintor e escultor) e o outro designer. E dadas as suas formações nestas áreas pedi aos dois uma definição daquilo que consideram como parâmetros essenciais para se definir uma obra prima.

O primeiro, o meu amigo pintor/escultor enumerou os seguintes pontos:

  • É um retrato da personalidade do artista e de toda a sua obra
  • É um esforço notório e claro de sair para além da mediania
  • Tem algo “extra”
  • Transporta as pessoas de alguma forma
  • Tem um efeito psicológico nas pessoas
  • É fundamental para a história e ficará marcado nela

O meu amigo designer acrescentou ainda uns pontos que considerei igualmente válidos

  • Apresenta algo único que a distingue
  • Toca as pessoas
  • É a melhor ou das melhores obras do seu autor
  • Não é necessariamente perfeita, mas é algo primoroso e inovador

Naturalmente que há a necessidade da humanidade de definir uma série de padrões para a definição de algo. Não podemos nas coisas cair no erro de julgar baseando as coisas na mera opinião. Porque o comercial e o popular é aquilo que vende, mas não necessariamente aquilo que se distingue! E com a banalização do termo na nossa linguagem, a dificuldade



Na altura em comentários dei o exemplo do filme “Os Vingadores” que retrata a história de vários super herois da Marvel. E não tenham dúvidas que colocar esse mesmo filme em exibição paralela com uma das grandes obras primas do cinema, “o Sétimo Selo” de Ingmar Bergman, levaria a que a sala com este último filme tivesse uma percentagem mínima de pessoas a ver o filme durante a sua exibição. Já “Os vingadores” teriam certamente semanas e semanas de exibição com a sala cheia.

Esta realidade é notória todos os dias quando olhamos para a TV. Os programas de grande audiência são os reality shows, e programas como o “Você na TV” ou outros similares. Programas que apesar de populares e de entreterem são autêntico lixo televisivo.

E quando em Portugal vemos cantoras como a Maria Leal,com uma agenda de espectáculos cheia, percebemos que caso entregássemos a avaliação da qualidade de algo ao gosto popular, estávamos bem desgraçados.

Se virem o video presente no link anterior cima percebem que a presença e quantidade de acertos criado pelo software “AutoTune” para dar harmonia à voz é absolutamente gigantesco. Caso não tenham noção do que este software faz, eis algumas cantores com grande voz, mas com e sem o “AutoTune” e perceberão depois do que estou a falar.

Aliás, se fossemos pelo gosto popular a Torre Eiffel tinha ido abaixo. Após a exposição universal de 1889 para a qual foi construida, a torre Eiffel era vista pela população como um autêntico “mamarracho” e estava previsto ser demolida. Não fosse a primeira guerra mundial e o facto de a torre se ter relevado fulcral para a colocação de pratos que interrompiam as comunicações rádio alemãs, ela tinha mesmo sido demolida.

Actualmente é um, se não mesmo o monumento mais famoso de todo o mundo e agora, aceite de forma quase universal, como sendo uma obra prima!

Mas temos outros exemplo. Já viram a Mona Lisa? Eis uma imagem:

Cremos que ninguém irá agora aqui discutir se este quadro é ou não uma obra de arte. É-o, e tal é aceite globalmente! Mas já viram vem o que temos ali?

A imagem tem um link para uma versão em alta resolução da foto para que a possam ver em mais detalhe.

Para começar o cabelo. Encaracolado ou liso?

Temos zonas onde ele é claramente encaracolado como nas frentes. Mas reparem nas traseiras e na testa, e o mesmo é liso. Afinal em que ficamos?

Agora olhem 30 segundos para uma nova janela vazia do browser com um fundo branco e depois olhem para a imagem. A personagem está a sorrir ou esta séria? Esta é uma das mestrias deste quadro e esta dupla sensação é transmitida pelos olhos, em que cada um deles possui um contexto diferente, e nesse sentido é possível vermos as duas coisas. É no fundo uma imperfeição, mas que ajuda a definir a mestria do quadro.

Reparem igualmente no cenário à esquerda e à direita da cabeça. Ele nem sequer se encaixa numa única imagem. Há ali dois cenários completamente distintos.

Naturalmente não vou agora abordar os mistérios deste quadro, mas a verdade é só uma. Ele possui imperfeições face à realidade! E isso só prova uma situação, a de que uma obra prima não tem necessariamente de ser algo perfeito, mas sim algo primoroso! Um dos pontos referidos pelo meu amigo.

Vamos então enquadrar The Last Guardian nos vários pontos acima referidos:

  • É um retrato da personalidade do artista e de toda a sua obra

Cremos que aqui ninguém tem dúvidas quanto a isso. Fumito Ueda caracteriza-se por este estilo de jogo, e The Last Guardian não foge minimamente a essa realidade. É um jogo que, como poucos, reflecte claramente a personalidade do seu autor. Aliás jogos deste género só mesmo vindos de Fumito Ueda!

Diz-se que a personalidade de uma pessoa é o somatório das suas vivências, e daí que podemos perceber pelo historial de Fumito Ueda que realmente a sua personalidade e aquilo que ele nos transmite nos seus jogos é fruto das suas vivências!

Fumito Ueda é um criador de videojogos que deve ter agora perto de 40 anos, e formado em 1993 pela universidade de Osaka. É uma personalidade fechada e reservada, dando poucas entrevistas. Como adolescente era um grande fan do Commodore Amiga, e tremendo fan de Flashback e Another World, dois jogos baseados em mundos ficcionais e misteriosos, onde já neles o diálogo não existia, e as mensagens eram passadas por gestos e atitudes. Acredita-se até que a forma de contar as suas histórias tenham sido tremendamente influenciada por estes dois jogos.

Diz quem o entrevistou que Ueda é brincalhão, mas com uma presença algo frustrante. Pondera as questões com cuidado, sendo educado e focado, sendo que recusa as interpretações ao seu trabalho e recusa partilhar as suas influências, fornecendo um ar de improviso constante.

Curiosamente Ueda teve uma intervista biográfica realizada à 10 anos pela revista Japonesa Continue, onde revelou que apesar de ter estudar arte na Universidade, ele especificamente decidiu especializar-se em arte conceptual como a sua componente prática principal. Esta componente de arte associada à sua maneira de ser são o motivo pelo qual Ueda cria os seus mundos num tom melancólico e misterioso, mas de grande beleza. Ueda é quase mitificado  pelo seu trabalho, mas mantêm uma postura auto depreciativa, não definindo os seus jogos de uma maneira fixa, e rejeitando interpretações fixas, dizendo apenas que as pessoas devem jogar, e no fim concluir por si mesmos aquilo que melhor se lhes aprouver.



Parece-nos claro que o estilo de Ueda é claramente fruto da sua maneira de encarar a vida e das suas vivências, definindo-se assim como um retrato da sua personalidade. Pelo menos a parte que dá a conhecer ao público!

  • É um esforço notório e claro de sair para além da mediania

Não só The Last Guardian sai da mediania, como inova. É um jogo único na sua abrangência, e vive da dualidade de personalidades de duas criaturas que são inimigas mas que necessitam de unir esforços para sobreviver, criando pela necessidade da interdependência uma amizade enorme. Em todos os meus anos de videojogos nunca joguei nenhum jogo que conseguisse tal como The Last Guardian consegue.

  • Tem algo “extra”
  • Apresenta algo único que a distingue

Podem parecer a mesma coisa. Mas não são! Se o segundo inclui o primeiro, o primeiro não inclui necessariamente o segundo!

Já foi dito em cima. Nunca nenhum jogo abordou esta temática. É inovador e mesmo único, tendo  por isso algo “extra” e simultâneamente algo único que o distingue! Não há nenhum jogo que se lhe compare e sabe tocar o coração com a sua história. É um jogo onde a história faz parte integrante do mesmo.

Mas quanto a este ponto deixo-vos com uma descrição feita pelo nosso leitor Bruno Ribeiro, que explica isto muito bem:

Tu controlas um rapaz, entre 10 a 13 anos que acorda, sem saber como, numa gruta ao lado de um monstro enorme e muito mal humorado.
Problema: tens que voltar para casa, mas depressa descobres que, para além da gruta, a tua prisão é uma fortaleza gigantesca, à qual não consegues ver o fundo, ou o cimo, e que precisarás da ajuda daquele monstro para sair dali. Não só isso, mas não estás sozinho.
Há guardas tenebrosos e inumanos a guardar o local, que não te deixarão sair dali e contra os quais não poderás fazer nada, contando apenas com a criatura para te defender
(Sim porque a tua personagem infelizmente não veio com o último modelo de fato de combate, nem com a última metralhadora com motoserra embutida ou tecnologia alienígena de última geração– facto que muita gente considera uma falha imperdoável).
Por isso, o jogo convida-te a criar uma relação com aquela criatura, ganhar-lhe a confiança, e não é nada fácil, porque o bicho está ferido, e vai te deixar várias vezes inconsciente quando te aproximas.

Conseguido isto, é aqui que entra a mecânica do jogo (que muita gente, habituada a ver ordens cumpridas com precisão militar em vários shooters, falhou em entender):
o jogo desafia-te a usares toda a tua astúcia e intelecto de modo a conseguir entender o cenário que te rodeia para progredires (chamam-se puzzles) e para isso terás que aprender a comunicar com aquela criatura.
O problema é que a criatura tem uma personalidade muito vincada: ora amua, ora quer brincar, ora te ignora. Há quem diga que isto é má IA.
Não podiam estar mais enganados, porque quando a criatura faz isso tu depressa vais aprender, porque o jogo te obriga a isso, a escutá-la. É que o bicho tens uns instintos do caraças e o sítio onde te encontras não é nenhum parque infantil. Várias foram as vezes em que foi a criatura indicar-me o próximo passo a dar, ou a avisar-me de uma armadilha.
É este o objetivo e a mecânica do jogo, aprenderes a comunicar com um ser virtual mas inteligente e vivo, para progredires num ambiente que tem tanto de belo como de hostil.”

Não há absolutamente mais nenhum jogo que seja como The Last Guardian em diversos aspectos, e poucos são os que tocam o jogador da mesma maneira, especialmente usando as mesmas ferramentas. Logo é claramente único! E é na forma como este jogo transmite as emoções e sentimentos que ele se destaca como nenhum!

  • Transporta as pessoas de alguma forma

Este é um ponto que a maior parte dos jogos felizmente consegue, o transportar-nos para um mundo de fantasia e fazer-nos vier o mesmo. Neste ponto, talvez pelo tipo de arte interactiva que são os videojogos e que conseguem ir mais longe que outras formas de arte, este ponto seja o mais fácil de ser atingido. Nem todos o fazem com a mesma mestria e mistério, ou num mundo tão belo e hostil como este, trazendo à tona sentimentos tão puros como a amizade, mas em termos gerais fazem-no.

  • Tem um efeito psicológico nas pessoas
  • Toca as pessoas

Mais uma vez podem parecer a mesma coisa, mas não são!

Quem não fica tocado com o final deste jogo, será certamente insensível. Não estamos a dizer que será necessário verter uma lágrima, mas o jogo toca nos sentimentos mais profundos do jogador ao deixar que se consiga sentir ao longo do jogo uma grande empatia com ambas as personagens. No fundo ter uma história sentimental não chega, é preciso que as pessoas se consigam ligar às personagens. E este jogo, não sendo jogado como mero jogo de plataformas, mas vivendo-o e sentindo a mensagem que nos transmite, nos toca no ámago da alma. O jogo permite viver os sentimentos destas personagens. Inicialmente algo de interesse, mas que ao longo do jogo passa a amizade pura e sincera. é por isso que este jogo não só nos toca, como nos mexe com o nosso psicológico e com os sentimentos, sendo que no fim deixa-nos a meditar sobre a amizade e tudo o que envolvia o jogo e a sua história.

É a mestria numa história contada com apenas algumas palavras, e onde os sentimentos não são descritos, não são transmitidos por beijos e abraços, mas se sentem e se vêem em pequenos gestos, atitudes e mesmo sacrificios.

  • É fundamental para a história e ficará marcado nela

Ico ficou, Shadow of the Colossus ficou, e The Last Guardian tambem já lá está! São jogos únicos e sem paralelo no mercado. São basicamente diferentes! Os dois primeiros ficaram na história, e este ficará igualmente! A aceitação da qualidade do jogo foi tal que, mesmo não tendo sido um campeão de vendas, e de ter saído apenas a 6 de Dezembro, o jogo mesmo assim foi um dos que mais votações de jogo do ano venceu! E tal só pode ser considerado um feito, uma vez que comprova que marcou mesmo quem o jogou!

  • É a melhor ou das melhores obras do seu autor

Fumito Ueda tem apenas três jogos em que assumiu a direcção. E todas eles são excelentes por si, sendo difícil escolher um como o melhor. Mas neste caso, com apenas três, a questão sobre se será “das melhores obras”, nem sequer se coloca.

  • Não é necessariamente perfeita, mas é algo primoroso e inovador

Nunca The Last Guardian foi considerado perfeito. O jogo tem inúmeros defeitos e inclusive bugs. Mas é sem dúvida inovador e foi criado com primazia e amor. Não é um jogo para as massas, é um jogo para quem sabe apreciar! Como aliás todas as obras primas são!

Neste aspecto de sentimentos e emoções, comparo The Last Guardian apenas a um outro jogo, The Last of us. Ambos tocam no âmago dos nossos sentimentos de forma profunda. Naturalmente que quem está habituado a jogar shooters, e a  entrar por ali a torto e a direito, passando a experiência sem a sentir, pensando apenas na diversão, terá dificuldades em apreciar um jogo destes, onde mais do que o jogar pela diversão, se o tem de viver e sentir, absorvendo a mensagem que nos é passada.

Se alguém quiser depois disto apresentar argumentos palpáveis sobre o facto pelo qual The Last Guardian não deve ser considerado uma obra prima… faça o favor. Os comentários agora permitem isso mesmo e podemos, educadamente, discutir o assunto!

 

 





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