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Retomando o nosso artigo

Fev 152011
 

A polémica sobre a lei espanhola que permitirá retirar da internet os sites de “pirataria”, conhecida como Lei Sinde (nome da ministra da cultura), e da qual já falamos aqui várias vezes, chegou Domingo à noite aos Prémios Goya.

O discurso do presidente da Academia do Cinema espanhola, Álex de la Iglesia, foi a bomba que já se esperava. Inicialmente Iglesia até apoiou esta lei, mas depois de ser confrontado no twitter com opiniões contrárias dos internautas mudou radicalmente de ideias. Tanto que já tinha anunciado há muito a sua demissão, em protesto, para logo após aos Prémios Goya deste ano. Quando disse há umas semanas atrás que “esta lei não serve a ninguém”, quase que esteve para ser forçado a demitir-se da Academia mais cedo.

Mas ficou. E ontem, ele próprio realizador de um filme nomeado, fez o seu discurso de despedida, todo ele em oposição a esta guerra contra a internet. A Ministra da Cultura Ángeles González-Sinde estava obviamente na assistência, e foi focada pelas câmaras várias vezes durante o discurso. Como escreveram no Público.es, a sua cara é «todo um poema». Notável o esforço para manter aquela “cara de poker”. Pareceu-me também estar muito atenta aos monitores que mostravam se estava a ser filmada.

O discurso completo, que recomendo, pode ser visto no vídeo em baixo, e lido em castelhano no Público.es. Mas aqui fica uma tradução das partes mais significativas:

Dizem que provoquei uma crise. Crise, em grego, significa “mudança”. E a mudança é acção. Estamos num ponto de não retorno e é o momento de agir. Não há marcha atrás. [...] As regras do jogo mudaram.

[...]

A Internet não é o futuro, como alguns acreditam. A Internet é o presente. A Internet é uma forma de comunicação, de compartilhar informação, entretenimento e cultura, utilizada por centenas de milhões de pessoas. [...] Os internautas não gostam que lhes chamem assim. Eles são cidadãos, são simplesmente pessoas, são o nosso público.

Esse público que perdemos, não vai ao cinema porque está em frente a um ecrã de computador. Quero dizer claramente que não temos medo da internet, por que a internet é, precisamente, a salvação do nosso cinema.

Só ganharemos o futuro se formos nós próprios a mudá-lo, nós que inovamos, adiantamos propostas imaginativas, criativas, trazendo um novo modelo de mercado que tenha em conta todos os implicados: autores, produtores, distribuidores, exibidores, páginas web, servidores, e utilizadores. É necessária uma crise, uma mudança, para poder avançar para uma nova maneira de entender o negócio do cinema.

Temos de pensar nos nossos direitos, claro, mas não esquecer nunca as nossas obrigações. Temos uma responsabilidade moral para com o público. Não podemos esquecer algo essencial: fazemos cinema porque os cidadãos nos permitem fazê-lo, e devemos-lhes respeito, e agradecimento.

[...]

Não há nada melhor que sentir-se livre criando, e partilhar essa alegria com os demais. Somos cineastas, contamos histórias, criamos mundos para que o espectador viva neles. Somos mais de 30.000 pessoas que têm a imensa sorte de viver fabricando sonhos. Temos de estar à altura do privilégio que a sociedade nos oferece.

Eu acredito, com toda a humildade, que se queremos que nos respeitem, há que respeitar primeiro.

Como se pode ver, não é à toa que Álex de la Iglesia se tornou em Espanha uma espécie de herói dos opositores a esta Lei Sinde e a toda esta guerra inútil contra a internet. Nem tão pouco surpreende que tenham pena de vê-lo sair da Academia do Cinema, para ser substituído por alguém que com toda a certeza será da velha guarda.

Algo me diz que provavelmente caiu quase tudo em ouvidos tão moucos como os de Francisco Goya, o pintor e gravador espanhol que dá nome aos prémios do cinema espanhol. Mais surdos ainda até, pois mais surdo é quem não quer ouvir. Veremos.

Fontes: TorrentFreak e Público.es

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  One Response to “Polémica lei espanhola anti-pirataria chega aos Prémios Goya”

Comments (1)
  1. Bravo… Finalmente alguem que aborda publicamente e em frente às câmaras a coisa numa perspectiva realista e não economicista. Até porque há muito a ganhar com um possível modelo de vendas pela internet que legalize a pirataria. Há é preguiça e falta de vontade de a implementar porque isso iria acabar com muitos modelos de negócio actuais.

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