Porque a Microsoft comprou Tomb Raider?

Se tivessem 200 milhões para gastar, como melhor investiriam o vosso dinheiro de forma a garantir a venda da vosso consola?

Imaginem que possuem 200 milhões de euros para gastar. E pretendem com ele garantir um exclusivo para as vossas consolas de forma a aumentar as vendas e a visibilidade.

Há várias maneiras de agir.

A primeira é investir esse dinheiro na criação de uma equipa de desenvolvimento, um estúdio First Party.
Trata,-se de empresas subsidiárias do possuidor da plataforma que a possui totalmente ou maioritariamente (51% das suas acções).
Os jogos criados por essas empresas são exclusivos do possuidor da plataforma pelo que caso a empresa seja dissolvida o IP pode ser desenvolvido por outra equipa, mantendo a exclusividade.

O problema deste tipo de investimento é o facto que o mesmo demora a apresentar resultados. Um jogo demora vários anos a ser criado, e como tal a criação destes estúdios é algo que necessita de planeamento antecipado. No entanto Sony e Microsoft estão no mercado à vários anos, pelo que tempo para pensar e criar estes estúdios não é algo de que se possam queixar.

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Naughty Dog

A alternativa é investir em contratos com um estúdio Second Party.

Aqui estamos perante equipas que criam jogos exclusivamente para o possuidor da plataforma, devido a um contrato de exclusividade. Aqui o detentor da plataforma pode ou não ter parte das acções da empresa, mas mesmo que o tenha não as possui em quantidade maioritária.

É por isso uma equipa independente que desenvolve de forma exclusiva, sendo compensada por contrato para tal.

Remedy

A alternativa a isto é gastar o dinheiro na compra de exclusividade de um jogo aos Third Partys.
Aqui estamos perante uma empresa que desenvolve jogos multi plataforma, mas que vendem a exclusividade dos mesmos a troco de pagamento e compensação pelas perdas das vendas nas restantes plataformas.
Podemos ter casos onde a empresa é contratada para desenvolver de forma exclusiva um jogo que de outra forma não sairia (Bayonetta 2), ou para desenvolver um novo jogo exclusivo (Ryse: Son of Rome). Poderá ainda acontecer adquirir-se uma edição de um jogo de um franchising já existente, como é o caso de Tomb Raider.

O que pretendemos aqui ressaltar é que os jogos vindos das empresas First Party são assumidos à partida como exclusivos. Sejam eles IPs a manterem-se explorados no futuro, ou jogos independentes, quando os mesmos são anunciados, sabe-se que são exclusivos de uma consola.

Uncharted é um exclusivo PS4, Halo é um exclusivo Microsoft, e sabemos que isto será assim independentemente da versão do jogo uma vez que os IPs ao serem desenvolvidos por estúdios First Party, pertencem ao possuidor da plataforma e não a quem os desenvolve.
É este tipo de jogos First Party que por vezes conta na escolha de uma consola. Mesmo não se sabendo quando ou com que qualidade o próximo título de uma série sairá, sabe-se que para o jogar teremos de possuir uma determinada consola. Daí que as vantagens deste tipo de jogos desenvolvidos por este tipo de empresas seja bem evidente quer para o detentor da plataforma, quer para o gamer que sabe assim o que adquirir para jogar o que gosta, sendo muitas vezes decisivo na compra.

unchartedhalo

Nos jogos Second Party o possuidor da plataforma, à partida, não possui direitos sobre o IP, mas possui direitos por contrato sobre o jogo em questão. Qualquer jogo lançado por estas equipas será sempre exclusivo, mas no entanto poderá acontecer a certa altura a empresa separar-se, e nesse caso, dependendo dos termos do contrato inicial, o IP poderá perder-se ou ficar com o detentor da plataforma.

Apesar de aqui não haver as mesmas garantias de cima, aplicam-se basicamente os mesmos princípios. As vantagens são menores quer para o detentor da plataforma, quer para o gamer (pois pode ser defraudado), mas existem.

AlanWakeBeyond

Já nos jogos Third Party, o IP é garantidamente da empresa que o desenvolve e não de quem adquire a exclusividade. Ali apenas se garante que o jogo sairá apenas na sua plataforma, podendo isto acontecer, mediante o acordo estabelecido, de forma definitiva, ou apenas temporal.
O acordo ocorre mediante um pagamento que garante um determinado volume de vendas que toma em conta as perdas ocorridas esperadas nas restantes plataformas.

Como é fácil de perceber, o último caso é o menos desejado. Os custos são bastante elevados e as benesses reduzem-se a uma exclusividade máxima de um único jogo (e não de um IP). Para versões futuras do mesmo jogo há que se negociar novo contrato, sob pena de este passar a ser multi-plataforma.

Nos últimos anos alguns jogos exclusivos PS3 deixaram de o ser, como Tekken e Devil May Cry.  Os custos/benefícios associados levaram a Sony a apostar fortemente na criação de estúdios que criassem os seus próprios exclusivos.

No entanto a vantagem da compra a terceiros é a disponibilidade imediata de um título. O jogo adquirido pode estar já pronto ou em estado avançado de evolução, poupando-se assim bastante tempo na colocação do mesmo à venda, algo que não seria possível se o dinheiro fosse investido numa equipa First Party.

Os acordos com os terceiros e as vantagens para a empresa e jogador.

Dependendo do tipo de acordo com as Third Partys, as vantagens para a empresa detentora da plataforma o jogador variam.

Vamos por isso ver o caso onde temos exclusividades para novos IPs e para IPs já existentes.

Novos IPs

No caso de um novo IP, a exclusividade é muito interessante. Basta ver o caso de Ryse: Son of Rome, um jogo exclusivo Xbox One e cuja qualidade gráfica faziam com que este fosse ansiado em outras plataformas. Um novo IP dá a pensar que o mesmo deverá continuar exclusivo na plataforma e faz assim ponderar na escolha da mesma.
Apesar de agora sabermos que o jogo sairá para PC, durante muito tempo este jogo era visto como um exclusivo Xbox One que demonstrava as suas capacidades gráficas. Era por esse motivo um exclusivo que, temporário ou definitivo, era uma montra do lado da Xbox One e ambicionado do outro lado. Daí que tinha vantagens para o detentor da plataforma, e para o Gamer que optava conscientemente pela plataforma caso o quisesse jogar.

Por outras palavras, um novo IP, a ter sucesso poderá levar à venda de consolas. É conteúdo novo, excitante, e criado para apenas uma consola. É uma benesse que é única da plataforma que apesar do custo ser superior ao obtido por um jogo idêntico criado por uma First Party, traz as mesmas vantagens.

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Naturalmente a coisa muda um pouco de figura com exclusividades temporárias. Nesses casos o custo pago é menor, mas o jogo só é exclusivo por algum tempo. Isto atrai alguns clientes, mas não todos, sendo que como factor de aliciamento o jogo se torna menos atractivo.

IPs já existentes

Mas e o caso de Tomb Raider? um multi plataforma já existente que está à 18 anos no mercado? (ainda não é claro se o jogo alguma vez sairá para outras plataformas, apesar de se saber que se trata de uma exclusividade temporal)

Bem,aí o caso muda um pouco de figura.

Se nos casos anteriores estamos notoriamente perante a criação de conteúdo novo e exclusivo do interesse dos Gamers. Neste caso a coisa parece ser bem diferente.

Na realidade custa a perceber, na perspectiva de Gamer, qual a vantagem deste tipo de exclusivo. Do lado de quem o obtém, o seu cliente nada ganha uma vez que o jogo estaria sempre disponível. Onde se cria a diferença é do lado de quem o perde, onde num jogo como este, com 18 anos de mercado e uma larga plataforma de fans espalhadas por todas as plataformas, as frustrações são notórias.

A imagem que fica é que na realidade nada de novo se traz ao lado que obtêm a exclusividade, apenas se paga é para privar os restantes do mesmo conteúdo. E isto é uma situação que naturalmente traz descontentamento ao Gamer pela fragmentação de mercado causada por mero dinheiro e interesse em… beneficiar pelo prejuízo de terceiros.

Aqui não temos de censurar a Microsoft. Mas como já reconhecido, a empresa não tem um jogo ao estilo de Uncharted para competir com o mesmo, e dessa forma opta por ir ao mercado arranjar algo para competir.
A censura terá, naturalmente, de ir para a Square por ter aceitado vender um capítulo intermédio de um dos seus franchisigns multi plataforma mais populares, restringindo o acesso à maioria do mercado e às plataformas mais fieis. A empresa não criou um jogo paralelo exclusivo, ou um jogo novo, mas vende um capítulo intermédio da história principal de uma saga multiplataforma à 18 anos, e agora, graças ao descontentamento criado, poderá ter comprometido seriamente o franchising e até comprometido outras vendas de jogos seus.

Como Phil Spencer já reconheceu abertamente em entrevista, a Microsoft adquiriu Tomb Raider para concorrer com Uncharted, referindo que não só é fan da série como que gostava que a Microsoft tivesse um jogo de aventura daquela classe, mas que não tem. Pelo que optou-se pela compra da exclusividade.

As First Party Microsoft – Passado

Mas a realidade é os motivos pelos quais não tem um jogo exclusivo assim, criado internamente, é simples: o historial passado da Microsoft com os seus First Party deixou muito a desejar, sendo fechados a maior parte dos estúdios. Outro dos motivos prende-se com o facto de a empresa, sempre que na presença de um IP de sucesso, obrigar as suas equipas a não fazerem mais nada senão esse mesmo jogo.

Por exemplo a Turn 10 só faz Forza! A Bungie só fazia Halo… e quando quis fazer algo diferente a Microsoft negou, daí que a Bungie, acreditando nas suas potencialidades, separou-se e tornou-se independente lançando o jogo que queria: Destiny! E que é nada mais, nada menos do que o jogo com o maior recorde de pré-reservas da história, que poderia ser exclusivo Xbox não fosse a teimosia obstinada da Microsoft em os prender a Halo.

Como resposta a Microsoft criou a 343 industries para substituir a Bungie. Aqui a empresa tem feito inegavelmente um bom trabalho, mas… mesmo reconhecendo-lhes o mérito… não são a Bungie! E mais uma vez, a Microsoft já tratou de os colocar a Fazer Halo… e mais Halo, e mais Halo. E só Halo.

A FASA, criadoras dos IPs Shadowrun e MechWarrior, foi adquirida em 1999, Mas a Microsoft fechou-a em 2007, licenciando os IPs a pequenos estúdios.

Adquiriu igualmente uma empresa de renome, a fabulosa RARE que tinha no seu historial Perfect Dark, Banjo Kazooie e a série Conker. Mas agora a RARE faz jogos Kinect de segundo plano, e mesmo tendo sido a responsável pela criação de Killer Instinct, a RARE nem sequer participou no seu remake para a Xbox One.

A Lionhead foi outra aquisição em 2006. E desde essa altura fazia Fable, Fable… e… Fable. Deixou de produzir para PC e o jogo afastou-se do seu conceito original, sendo que um grande número de pessoas saíram nos últimos dois anos, incluindo o núcleo duro da equipa e o seu líder Peter Molyneaux que já transitavam da Bullfrog. Agora a equipa está a fazer um novo… Fable (Fable Legends). talvez o que mais se afasta até hoje do conceito original.

Mas há mais… A Microsoft desmantelou a Ensemble Studios, a Aces Studio, a MS Flight Team, a MS Victoria Studio (estes até é justificável pois nunca lançaram nada) e a Carbonated Games.
Nos últimos anos comprou a BigPark, mas deixou-a ser absorvida pela MS Game Studios, e a Twisted Pixel (que só fez joguinhos de caracácá), bem como a Press Play que basicamente deve andar a jogar cartas pois não fez igualmente nada de jeito.

Outros estúdios encerrados foram a Artoon, criadora de Blue Dragon, A Beep Industries, a Bizarre Creations criadora da série Project Gotham, a Dark Energy Digital, a Dream Works Interactiva, a Feelplus, a Fuel Industries, a Game Republic, a Hudson Soft, a Indie Build que fazia a série Amped, a Realtime Worlds, responsável por CrackDown, a Silicon Knights, a Southend Interactive e a Turbine.

A ultima grande novidade é criação da Black Tusk, supostamente um novo estúdio de topo a quem, segundo se refere, foi entregue a criação do novo Gears of War. Mas que basicamente não é novidade nenhuma. Trata-se da Microsoft Vancouver remodelada e renomeada, após anos a fio sem acabar um jogo que fosse.

Mas esta situação não é uma exclusividade da Microsoft. A Sony, apesar de muitos menos, fechou igualmente estúdios. A Sony Bend criou Syphoon Filter e foi fechada posteriormente. Depois temos a Zipper Interactive que produzia Socom, a BigBigStudios que produziu Little Deviants para a Vita e  Motorstorm: Arctic Edge para a PS2, a 989 Studios e o LiverPool Studio.

Naturalmente motivos económicos e a relação custo/produtividade/qualidade estiveram por detrás das decisões de ambas as empresas.

As First Party Microsoft – Presente

Seja como, esse é o historial passado. E a Microsoft, apesar de tardiamente, tem vindo a corrigir essa situação. Estúdios novos como a LEAP, também conhecida como LXP Studios, a SOTA (state of the art), a [FUN]ction Studios, e a NP, foram recentemente revelados. 

Da mesma forma equipas relegadas a pequenos jogos Kinect como a Good Science Studio que fez Kinect adventures e Kinect Fun Labs, a Leap Experience Pioneers que desenvolvia igualmente produtos Kinect, estão agora com projectos AAA entre mãos (e a RARE?? Que tal deixarem-nos fazer um novo Banjo?).

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Resumidamente a Microsoft corrigiu os erros do passado, e está no bom caminho (É típico da Microsoft). A questão é que estes estúdios são bastante recentes ou receberam os seus projectos muito recentemente, e como tal qualquer jogo que possam estar a produzir demorará ainda bastante a sair. 

Com a Turn 10 com um jogo lançado e outro a sair, a Liohead, a 343 Industries e a Team Dakota com os seus próximos jogos para 2015, e a Black Tusk anunciada como produzindo Gears, basicamente as melhores e mais conhecidas First Party da Microsoft já apresentaram os seus trunfos para os próximos tempos nos IPs mais conhecidos da Microsoft. Daí que não se incluindo aqui um jogo para combater Uncharted, que se afigura como provavelmente um dos melhores jogos da Playstation 4, recorrer a terceiros seria a única forma de fornecer à sua consola um produto concorrencial dentro do mesmo estilo.

É por este motivo que não censuro a Microsoft pela compra de Tomb Raider. Se é verdade que a gestão passada foi má, é a realidade actual com que a empresa vive, sendo que esta recorre às alternativas existentes para ser concorrêncial. Repetindo-me, censuro, isso sim, a Square Enix por se ter vendido num IP multiplataforma com 18 anos e com tantos fans em outros sistemas.

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