Está o mundo preparado para o streaming?

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Já abordamos esta situação anteriormente, mas perante o anuncio de vários serviços de Cloud achamos que o ideal era um artigo atualizado sobre aquilo que são as realidades da internet pelo mundo.

Os serviços de Streaming… A Google pede 15 Mbits para 720p, 25 Mbits para 1080p, 30 para 4K (a compressão tem claramente de aumentar de forma gigante ao se ir para 4K). A Microsoft refere que espera 9 Mbits para os seus 1080p.

Sem estar agora a questionar se estes valores serão ou não suficientes, será que estes requisitos são realistas perante a realidade do mundo?

A questão é premente quando as empresas falam de 2 mil milhões de jogadores que podem ser alcançados, e esse é um número Global. Daí que se os clientes são contabilizados globalmente, tambem temos de ver a realidade global da internet.

Velocidade de internet

Ficarias muito chocado em saber que em 2018 a velocidade média mundial de internet era de 9.1 Mbits/s?



Antes do aprofundar este assunto, gostava de deixar bem clara uma questão. A média é um valor muito enganador que esconde muitas realidades. Eu uso muito esta frase para explicar a coisa:

Se eu comer dois frangos e tu não comeres nenhum, em média comemos um frango cada um

Ora analisando esta realidade o que vemos é que a média não reflecte a realidade das coisas. Ali o que vemos é um conjunto de 2 pessoas bem alimentadas. Mas na realidade há disparidades gigantes. Uma tem acesso excessivo a alimento, e a outra passa fome. A média não reflecte isso, e dá uma ideia de que ambas estão devidamente alimentadas, deturpando a realidade.

É esse factor que gostava de deixar bem claro, que quando a média aponta para um valor, na realidade temos casos acima desse valor, mas também temos casos abaixo desse valor. A média não nos dá muitos dados exactos, sendo apenas isso, uma média. Se eu tiver 3 pessoas com uma velocidade de 2.5 Mbits e uma com 12.5 Mbits, a média é de 5 Mbits. Mas na realidade apenas 25% da amostra alcança esse valor, sendo que 75% não o consegue.

A média é por isso um resultado muito enganador!

Mas a realidade mundial é que a média é de 9.1 Mbits, o que quer dizer que quando a maior parte de nós por norma no seu dia a dia lida com mais, terá de ter consciência da enorme quantidade de pessoas que estão bastante abaixo desse valor. A média assim o dita!

Com isto presente, onde apareceu o número de 9.1?



Bem, antes do mais convêm esclarecer que os números dizem respeito ao ano transacto de 2018. A velocidade média da internet tem subido bastante ao longo dos anos, sendo que o que nos interessa são valores actuais.

Depois a velocidade é a média de todas as ligações. Isso inclui as velocidades de internet fixa, mas igualmente a móvel. Basicamente os valores serão certamente maiores se considerarmos apenas as ligações fibra, algo menores se formos para cabo, ainda menores se formos para adsl, e menores ainda para as redes 4G e 3G.

Este estudo foi assim o que nos interessou pois o interesse inerente dos serviços de streaming é a universalidade do acesso, e nesse aspecto o relevante é perceber-se com o que se pode esperar em média em cada pais.

Podem perguntar… e qual a fiabilidade deste estudo? Bem, ele foi efectuado usando valores de testes reais de utilizadores à sua velocidade de internet. Foram 163 milhões de testes que foram realizados em mais de 200 paises ou territórios, e que mostram a realidade da internet. Não aquela que nos transitem os ISPs, não aquela que julgamos existir julgando pela nossa realidade e a das pessoas com quem nos damos, mas a realidade global.

O teste em causa foi publicado pela Ookla, responsável pelo conhecido programa Speedtest que apresenta os dados da rede fixa e móvel e e pela Atlass & boots e Fastmetrics, que optaram por apenas publicar as médias, por considerarem ser aquilo que melhor reflecte a total realidade das conexões internet de um país.



Nesse aspecto, quando analisamos Portugal, este fica em 29º lugar a nível mundial a nível de média de velocidades internet, com 21,28 Mbits. No entanto na rede fixa a média de velocidades medidas é de 44.24 Mbits, sendo que na móvel é de 19,86 Mbits. Como vemos os 21,28 Mbits de média estão mais próximos dos 19.86 Mbits, do que dos 44.24 Mbits, o que quer dizer que no global há mais pessoas a usar velocidades baixas, do que pessoas a usar ligações com velocidades rápidas.

Ora Portugal, mesmo não tendo, em média, capacidade para um serviço de streaming como o da Google, a 1080p, é um pequeno paraíso a nível de internet. Como referido, somos o 29º melhor!

Mas mesmo com países e regiões de nome à nossa frente, apenas 21 deles garantem uma média capaz de cumprir com os requisitos de 25 Mbits da Google para os 1080p. E apenas 10 consegues os 30 pedidos para os 4K. São eles a Singapura, a Suécia, Dinamarca, Noruega, Roménia, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, a Hungria e as ilhas de Jersey (com cerca de 98 mil habitantes).

Mesmo os EUA, que ocupam o 20º lugar da lista, possuem apenas uma média de 25.86 Mbits. A internet nos EUA é tambem das mais caras com 25 Mbits a custarem 55 dólares.

E quanto ao Brasil?



Bem, o Brasil surge em 133º lugar. A sua velocidade média de velocidades de internet registadas em 2018 foi  de 2.58 Mbits.

Notem que estes valores não são fictícios, podem encontra-los nos links de cima. E sejam eles ou não representativos de toda a realidade, o certo é que estas são médias que foram efectivamente registadas. Não há como fugir a elas!

A minha realidade é alternar entre duas cidades onde as ligações são excelentes. No entanto, na cidade do Porto, a segunda maior do País, a saturação é claramente maior, com maiores variações de performances da internet ao longo do dia, e acima de tudo do Ping.

A questão que muitos parece esquecer é que a velocidade contratada não é o relevante. Importa é a velocidade efectiva que se obtêm. E essa muda conforme a saturação da rede! Nas horas de maior saturação da internet certos serviços podem ficar bastante mais lentos, e os pings subirem para 3 ou quatro vezes mais, o que em serviços de streaming representaria uma latência mais elevada.

Eis uma variação das velocidades de internet medida nos principais ISPs nacionais, durante o dia:



Este é um dos outros factores que tornam os valores médios uma farsa. Se a realidade é que os valores médios nos indicam que há pessoas bastante acima e outras bastante abaixo desse valor, esta realidade mostra-nos que não só a média muda ao longo do dia, como uma determinada pessoa pode passar ao longo do dia de valores acima da média para valores abaixo da média, e vice-versa.

 O fim da Neutralidade da Internet tambem não abona nada aqui. Os serviços de Streaming são responsáveis por uma quantidade elevadíssima de tráfego da internet, sendo que eles são capazes de saturar a rede de um ISP. É por esse motivo que muitos ISPs limitam as velocidades dos utilizadores quando estes usam o Youtube ou  Netflix.

A realidade é só uma, o tráfego é pago! E uma coisa é vender-se um pacote de 100 ou 200 Mbits a uma pessoa que atinge picos de consumo de curta duração, e outra é vendê-lo a pessoas que gastam de forma regular grandes quantidades de tráfego. Os serviços de streaming elevam muito os consumos de internet, e saem por isso mais caros aos ISPs do que um mero acesso a páginas de internet com carga imediata, ou um pequeno download realizado em segundos dada a elevada velocidade. Nesse sentido os operadores protegem-se limitando as velocidades aos utilizadores desses serviços. Pode não estar a acontecer contigo, mas acontece com alguns, sendo que o streaming de videojogos trará um aumento enorme de tráfego a nível mundial que irá abrandar as redes que precisam assim de melhorar as suas infra-estruturas.

E quem julgam que vai pagar isso? O cliente, claro. Ou com aumento dos custos da internet, ou com pagamento adicional para acessos a esses serviços.



 

 

 

 

 





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