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Procura-se impressora pirata!
Escrito por Nelson Cruz   
06-Jul-2008

Um grupo da Universidade de Washington conseguiu que impressoras da universidade fossem alvo de queixas por alegada partilha de filmes como o novo Indiana Jones e o Iron Man.

Nos EUA é bastante comum algumas empresas como a MediaSentry e a BayTSP vigiarem as redes de partilha de ficheiros em nome dos estúdios de Hollywood, recolhendo os IPs dos que partilham por exemplo filmes acabados de lançar no BitTorrent e enviam emails aos respectivos ISPs exigindo a remoção desses conteúdos ao abrigo da lei DMCA (Digital Millennium Copyright Act). Os ISPs geralmente, após identificarem nos seus registos quem usava aquele IP na hora descrita, re-encaminham o email ao cliente respectivo. Mesmo cá em Portugal há alguns anos atrás muitos clientes da Telepac e Netcabo utilizadores do eMule receberam alguns destes emails.

Em Maio deste ano um grupo da Universidade de Washington conduziu um estudo a estes sistemas, tentando receber os ditos avisos mesmo sem nunca fazer o download ou partilha de qualquer conteúdo. As técnicas de monitorização empregues por estas empresas são de uma fiabilidade tal, que este grupo conseguiu que a universidade recebesse queixas contra 1 um computador completamente inocente, 1 AP sem-fios e 3 impressoras de rede!

Este grupo já tinha em Agosto de 2007 feito um estudo sobre a actividade na rede BitTorrent, simplesmente enviando pedidos regulares a inúmeros trackers com o objectivo de determinar quantas pessoas estavam a partilhar certos ficheiros. Basicamente o mesmo que as empresas de monitorização fazem para obter os IPs dos "piratas". Acontece que isto basta para que os trackers os identificassem como estando a participar na partilha, e acabaram por receber 122 queixas, não tendo feito qualquer download ou upload de qualquer ficheiro!

Desta vez conseguiram receber um total de 281 queixas, apesar de terem vigiado metade dos torrents que no ano anterior. Inclusive incriminaram equipamentos da universidade que nada tinham a ver com o assunto. Serviram-se de uma função de alguns trackers que permite fornecer um segundo IP, para além daquele usado para fazer o contacto. É uma função útil no caso de utilização de proxies, mas como foi provado também pode ser usado com intenções maliciosas, incriminando IPs inocentes. O estudo fala até na possibilidade de alguém criar um tracker que indique IPs aleatórios, entre outras possibilidades pelas quais internautas inocentes podem ser implicados, intencionalmente ou não.

Isto porque estas empresas recorrem à chamada detecção indirecta, confiando pura e simplesmente no que os trackers indicam, sem contactarem directamente os IPs para verificar que estão de facto a partilhar o ficheiro indicado. Isso exigiria recursos muito superiores, nomeadamente gastar uma largura de banda no mínimo 10 vezes maior.

Actualmente as editoras fonográficas estão a tentar que mais países adoptem a "inovação" francesa de obrigar os ISPs a cortar a ligação dos clientes que sejam alvo de 3 queixas por pirataria de música (sem apresentação de provas, sem ir a tribunal, nem dar oportunidade de defesa aos visados)! Ainda a lei não foi aprovada em França, e já as editoras estão a tentar negociar com os ISPs ingleses (sobre ameaça do governo de introduzir legislação), e tentar que esta medida seja introduzida à sucapa numa directiva europeia sobre telecomunicações que será votada em comissão esta segunda-feira dia 7 de Julho. Outras emendas em cima da mesa prevêem a obrigação dos ISPs em vigiarem e filtrarem os conteúdos que passam pelas suas redes, e ilegalizar a utilização na internet de programas não autorizados por uma autoridade administrativa. Seria o fim da internet como a conhecemos. Seria o regresso às redes telefónicas em que só os equipamentos "homologados" podiam ser utilizados. Ou aos tempos da antiga união soviética em que todas as máquinas de escrever tinham de ser registadas numa agencia governamental.

O Parlamento Europeu já anteriormente se manifestou contra medidas desta natureza. Ficaremos atentos à votação de hoje. Caso sejam aprovadas em comissão, estas emendas serão votadas em plenário em Setembro, altura em que a directiva deverá ser aprovada.

Se as técnicas de monitorização das empresas da especialidade são tão pouco fiáveis e fáceis de enganar como revela este estudo, como é que os governos e legisladores podem sancionar que os cidadãos possam ser privados automática e administrativamente de algo tão importante hoje em dia como é o acesso à internet, apenas pela mera acusação insubstanciada??? E tudo para proteger empresas e indivíduos que se recusam ou são incapazes de adaptar os seus modelos de negócio aos novos tempos e às novas tecnologias...

Imagine-se por exemplo se qualquer emissora de rádio fosse imediatamente encerrada por fazer a emissão de música. Impensável, não é? E no entanto, também no inicio os artistas e editoras gritaram "roubo"! Acabou por ser legalizada mediante o pagamento de pequenas taxas.

Só a "rádio" da nova geração é que ninguém se atreve a legalizar!

Mesmo que estas medidas sejam aprovadas, este estudo põe já em causa a sua eficácia. Sugerem que os IPs das empresas de monitorização possam ser facilmente identificados pela sua participação em múltiplos trackers sem no entanto enviar ou receber ficheiros. E que a vigilância e filtragem por parte dos ISPs possa ser dificultada pela utilização de encriptação mais poderosa e dinâmica.

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