O fim de uma era

É triste ver o gaming a alcançar um fim de uma era. E pior a entrar numa fase de auto destruição, com a colaboração dos próprios gamers.

A PCManias está encerrada, e vai continuar encerrada. Mas no entanto, após ter acompanhado a indústria por mais de 20 anos, e de tanto ter criticado a Microsoft por tomar um rumo em que, lentamente estava a causar danos irreversíveis à sua consola, que basicamente, neste momento, está, a nível mundial, morta e sem representatividade, valendo apenas pelo mercado pré existente, ver a Sony, com uma única medida a tomar uma postura que vai causar um tremendo dano à indústria, que nunca mais será a mesma, e que levará mesmo a que muitos (eu incluído) abandonem de vez as consolas, é algo muito, muito triste.

Falo, claro, do anúncio do fim dos jogos físicos!

Pessoalmente nunca fui fan do digital. Acolhi a sua chegada com algum cepticismo quando ele apareceu, quanto mais não seja pelo facto que os jogos são algo caro e o físico dá-nos, mesmo que erroneamente, uma sensação de posse. Serve, no mínimo, para se poder acrescentar numa prateleira a uma coleção e se poder dizer: eu possuo este jogo!

No entanto, essa não foi a realidade que vivi ao longo de mais de 40 anos de gaming. Tenho uma coleção de consolas, PCs, e outros computadores, invejável, e junto com eles, tudo plenamente funcional, tenho jogos físicos. Quero jogar um jogo Spectrum, Atari St, PC, Nes, GameCube, PS1, PS2, PS3, Xbox, Xbox 360, GameCube, etc,etc, tudo está funcional. Tudo é meu, tudo está lá, funciona como e quando quero. É um mini museu de recordações de uma vida que eu possuo e controlo. Uma liberdade de gerir o que paguei, e onde gastei milhares de euros, como e quando quero.

O digital, infelizmente, não permite isso. Mas mais do que se pagar por se obter apenas uma licença, o que choca nele é tudo ficar dependente de terceiros. Ao longo dos anos publiquei aqui na PCManias casos e mais casos de.servicos digitais que fecharam e que com isso levaram aqueles que pagaram pelo que adquiriam, a perder todo o conteúdo pago. E não estou a falar apenas de serviços que muitos podem dizer que são de empresas pequenas. Não, Microsoft, Google, Sony, e muitas outras grandes empresas estão incluídas aqui! Questões de custos, de compatibilidade, de falência, de licenciamento, e de mil e uma outras razões levam as empresas a fechar seja as portas ou os serviços. E perante uma venda apenas de um direito de uso, o cliente não pode sequer reclamar. Afinal o que perde nunca foi seu!

Há muitas pessoas que não entendem isto. Que não só acreditam que isso nunca vai acontecer com eles, como olhando para a experiência do PC, acreditam que tudo vai correr sempre pelo melhor.

Mas não vai… O PC é efetivamente um caso à parte. Tão à parte que, a continuar a jogar daqui para a frente, será no PC, dada a segurança adicional que a competição de mercado, criada por diversas lojas online, e a qualidade de serviços como o Steam, oferecem. Mas no entanto, ninguém se iluda. Tudo o que é vendido aqui é digital. E como tal nada é verdadeiramente da posse do cliente. Tudo é ilusório e o que se possui é apenas uma licença de uso que a qualquer momento pode ser revogada. Um dia que os atuais donos do Steam mudem, a nova gerência pode ter políticas diferentes, pode ter uma gestão diferente, pode ter conceitos diferentes, pode levar a empresa à ruina. E os utilizadores não podem sequer queixar-se pois os termos de serviço são claros: O cliente apenas possui uma licença.

No caso das consolas a coisa é mais chocante. Isto porque o encerrar do físico atira o cliente para uma única alternativa. A loja online da marca! Basicamente um monopólio, onde a marce pode praticar os preços que bem entender.

E aqui há algumas coisas a serem ditas. O digital quando apareceu, veio com a promessa de que seria mais barato. Afinal não há comissões, custos de distribuição, custos de fabrico e embalagem. Mas o que se viu nunca foi isso. O digital sempre foi vendido ao preço do físico. E pior, quando o físico baixa de preço, por aparecerem usados em quantidade, o digital não baixa. Jogos de 80 euros que estão à venda em físico a 20 ou 30 euros, continuam à venda a 80 euros na versão digital.

Naturalmente que, perante isto, que pouco ou nada de bom tem para o consumidor, as empresas têm uma clara preferência pelo digital. Afinal encaixam mais, e gastam menos!

E isto é universal. Mesmo o Steam faz isto. A ideia que lá as coisas são algo diferentes é ilusória e o facto de o mercado físico no PC ser inexistente só ajuda a contribuir para essa ilusão. As promoções existem, mas os preços são superiores ao que seriam se houvesse mercado físico.

Agora um monopólio é algo inaceitável. Especialmente quando se começa a ver preços individualizados nas lojas digitais. Basicamente a loja propõem preços diferentes aos diversos utilizadores de forma a promover vendas. E isto, já detectado e sinalizado, é difícil de perceber pois quando se conta ao amigo e ele vai ver e não tem esse preço a imagem que passa é que foi uma promoção que já acabou.

A situação começou com o anúncio de GTA VI sem versão física. E as pessoas, que são capazes de se atirarem abaixo de uma ponte tal como lemmings que seguem a tendência, aderiram aos milhares. Perante isto, a decisão de fim dos fisicos foi tomada. Pode-se ganhar mais, as pessoas compram na mesma, converte-se a fábrica para algo que dê mais dinheiro, e a empresa ganha aqui mais uns milhões. Que o cliente, numa altura onde tudo sobe menos os salários… Que arrote mais um pouco.

Claro que esta atitude tem outros argumentos. A PS6 e o elevado custo de produção atual tem a ver com isso. A Sony vai subsidiar a consola de forma a mantê-la atrativa, e para isso tem de ir buscar o dinheiro a qualquer sítio. Esta foi uma das soluções!

Infelizmente, a Sony vê mal a coisa. Olhando para a PS4 vemos que ela vendeu 117 milhões de consolas. Mas o attach ratio, ou número de jogos médio vendido por consola, foi de 9.6. ou seja, em média venderam-se 9.6 jogos por cada consola. Claro que alguns compradores compraram mais, outros menos. Mas a média foi essa.

Com este dado não será difícil para quem ler isto, olhar para a a sua prateleira de jogos e contar quantos tem. E muitos vão perceber que tem muito mais do que 9.6 jogos. Eu pessoalmente estou bastante acima desse número. Bastante mesmo, com o número de jogos que possuo, a ter 3 dígitos.

Isto quer dizer que nem todos os clientes são iguais. E que há alguns cuja perda criam muito mais dano do que se pode imaginar. Não é apenas perder um cliente, é perder um que vale por dezenas ou mesmo centenas de outros. E no meu caso, sem jogos físicos, não irei manter a PlayStation e a PS6, bem como o GTA VI vão ficar de lado, e quando muito adquirirei este jogo mais tarde, no PC.

Basicamente o que há que se perceber é que o fim dos físicos traz a perda de liberdade. Liberdade de escolha e posse. Seja-se cliente do fisco ou não, isto significa um corte nas liberdades e direitos do gamer que ninguém deve aceitar. Hideo Kojima foi das figuras públicas que falou e repudiou o fim do fisico, alertando todos que o cloud gaming é o passo que se segue, e que percebam bem as implicações do fim do físico, mesmo que não sejam clientes.

Nesse sentido, pelas consequências futuras que irão advir daqui, faço um apelo a todos os que são fans dos videojogos. Boicotem toda esta situação. Não está em causa um gosto ou um capricho. Não está em causa o jogador A ou o B. Está em causa o futuro dos jogos, o monopólio e controlo de como e quando o jogador acede e como acede ao conteúdo.

Daí que, valendo o que vale, surge o apelo do boicote ao GTA VI e à PS6, com o término da subscrição na PSN. Eu já o fiz. O resto de vocês são livres de o fazer, ou não, a escolha é de cada um! Mas tenham noção que a vossa decisão terá implicações futuras, pelo que depois… Não se queixem.

Mais uma vez obrigado por 20 anos de acompanhamento da página.

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