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Autor:
Nelson Cruz |
Data: 26/05/2005
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Quem fabrica os computadores portáteis?
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É um facto pouco conhecido, mas são poucas as marcas que fabricam os seus próprios portáteis. Todos sabem que o processador é Intel ou AMD, o chipset também é dos "suspeitos do costume" (Intel, VIA, SiS...), o chip gráfico - se não for integrado no chipset - é da Nvidia ou ATI e os discos rígidos também são da meia dúzia de marcas do costume. Mas quem é que faz a caixa, ou chassis, de um portátil? E a motherboard? E o ecrã? E quem é que monta tudo?
Este artigo começou no Fórum com uma questão sobre as marcas de portáteis, inclusive de linha branca, não revelarem o fabricante da motherboard. Comecei a escrever a minha resposta, que se tornou tão longa ao ponto de merecer um artigo.
Os ecrãs dos portáteis são LCD. Fabricantes de painéis de cristais líquidos também só há alguns (Samsung, LG/Phillips, AU/Optronics e Hydix). Quem fabrica os monitores LCD completos, tal como os chassis de portáteis, adiciona a electrónica que gere estes painéis e que por vezes até faz diferença significativa.
As motherboards têm geralmente de ser feitas de propósito para cada modelo de portátil. A motherboard tem de ser dimensionada de acordo com o chassis do portátil assim como os outros componentes que lá têm de caber e a sua disposição. Não há normas de dimensão das caixas e motherboards como nos computadores de secretária. Daí que não haja motherboards e caixas genéricas. Geralmente é o mesmo fabricante que faz o chassis (com ecrã incluído) e a motherboard.
As grandes marcas de portáteis (como HP/Compaq, IBM e Dell) não revelam de facto quem os fabrica. Não lhes interessa fazê-lo já que isso seria revelar que eles não fazem nada daquilo que vendem, o que não é necessariamente um aspecto negativo mas não ajuda a uma boa imagem da empresa. O que de certeza não lhes convém é revelar que os seus portáteis são feitos nas mesmas fábricas que outros de outras marcas muito mais baratas. Ao não falarem disso ao menos mantêm a ilusão que fazem o chassis e a motherboard. E já foi assim no passado, mas não mais.
Hoje em dia quase todos os portáteis vêm do extremo oriente, a maioria de Taiwan, seja qual for a marca com que seja vendido ao consumidor final. Duas empresas apenas foram responsáveis por 60% da produção de portáteis a nível mundial em 2004, e espera-se 61-75% este ano, de acordo com a THT Research. Tratam-se da Quanta e da Compal Electronics (não confundir com a empresa portuguesa de sumos), ambas sedeadas em Taiwan embora já com unidades de produção na China continental. Entre os principais clientes da Quanta contam-se a Dell, IBM e Gateway, mas também a Acer.
Que Quanta e Compal são os dois maiores todos concordam. “Candidatos” a terceiro lugar é que há pelo menos três: Inventec, Asus e Wistron. O número de portáteis fabricados por estas empresas anda relativamente próximo e têm alternado na terceira posição nos últimos anos.
A Inventec, pelo que consegui encontrar, tem como principais clientes a HP e a Toshiba. A Toshiba ainda tem fabrico próprio no Japão, mas tem tido problemas financeiros e no ano passado decidiu encomendar mais de metade dos seus computadores a terceiros para voltar aos lucros. Segundo esta notícia as novas encomendas foram repartidas mais ou menos a meio entre Inventec e Compal.
A ASUS, apesar de como marca de portáteis andar em 10º lugar (com tendência a subir), também fabrica para outras marcas como IBM, Sony e Apple (nomeadamente os atraentes iBook). Uma notícia do DigiTimes no ano passado dizia que esperavam vender 1.2 milhões de portáteis com a sua própria marca, o dobro que em 2003, e que em 2005 tinham como objectivo 2 milhões com marca própria e outros 2 milhões fabricados para outras marcas. É das poucas marcas actuais que desenha, concebe e fabrica os seus próprios portáteis. A título de curiosidade saibam que também fabrica consolas Playstation 2 para a Sony e o iPod Shufle para a Apple.
A Wistron faz parte do grupo Acer. É o antigo centro de design e fabrico da Acer que se tornou independente quando a Acer decidiu dedicar-se à promoção dos seus portáteis no resto do mundo. Actualmente não fabrica apenas os portáteis dessa marca. Há muito que tem encomendas da IBM, renovadas agora pela chinesa Lenovo depois desta ter comprado a divisão de PCs (de secretária e portáteis) da IBM, e recentemente conseguiu contractos lucrativos com a HP e Dell. Só a Lenovo encomendou 500 mil portáteis com ecrãs de 14" à Wistron e 400 mil de 15" à Quanta. A notícia referida anteriormente sobre a ASUS também fala dos 5 milhões de portáteis que a Acer planeia vender em 2005, 40% encomendados à Quanta e o resto dividido entre a Compal e Wistorn. A título de curiosidade saibam que Wistorn também fabrica consolas Xbox para a Microsoft.
Tradicionalmente estas empresas fabricam o que as grandes marcas concebem. Ou seja, as grandes marcas desenham e concebem os portáteis e depois encomendam o seu fabrico a uma destas empresas de Taiwan. Daí que se observe diferenças no design, características e qualidade das várias marcas. Porém cada vez mais Taiwan investe e adquire competências de design e concepção próprias. Cada vez mais são lá concebidos produtos em que as empresas americanas e japonesas apenas colocam a sua marca e vendem aos consumidores finais. As empresas de Taiwan estão a tornar-se no que se começa a designar por ODMs (Original Design Manufacturers), empresas que não só fabricam por encomenda, mas também concebem e desenvolvem produtos por encomenda com base em capacidades instaladas e propriedade intelectual própria. Foi com recurso a estes ODMs que a Dell rapidamente entrou nos mercados de portáteis, PDAs e monitores LCD, quando há poucos anos atrás apenas tinha experiência nos computadores de secretária.
É graças também aos ODMs que surgiram os portáteis de “linha branca”. Este estado actual das coisas é uma boa oportunidade para pequenas empresas nacionais (e espanholas) oferecerem portáteis baratos, encomendando chassis aos ODMs de Taiwan e montando os restantes componentes conforme o cliente quiser. O mesmo acontece com memórias USB, leitores MP3, leitores DVD, PDAs, monitores e televisões LCD, etc.
Claro que as empresas de Taiwan também vão aproveitando para lançar marcas próprias e competir com os grandes. Afinal, se já concebem e fabricam os produtos porque não fazer o resto e vender directo? É o caso da Asus e da Acer, uma com enfoque no design e qualidade, outra apostando mais no baixo custo. E assim Taiwan (e por arrasto a China continental) se vai posicionando como o “novo Japão”. A ironia da situação é que foram as grandes empresas americanas que, ao encomendar o fabrico de produtos em Taiwan para reduzir custos, ajudaram ao desenvolvimento da indústria electrónica nessa ilha, que agora as ameaça de morte.
Desengane-se quem pense que a única força da China é a mão-de-obra barata e que os chineses não são capazes de inovar, desenhar e conceber bons produtos. Afinal actualmente formam-se na China uma maior percentagem de engenheiros do que em qualquer outro país do mundo. Até já há quem sugira que Silicon Valley poderá acabar a fornecer serviços aos ODM em vez do contrário. [voltar]
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