A responsabilidade da comunicação social para com o público alvo

É certo que ninguém está livre de se enganar e transmitir informação errada, mas a verdade é que, entre os órgãos de comunicação social, há aqueles em que isso não deveria acontecer.

Falamos naturalmente daqueles órgãos onde existem equipas de redactores, onde os textos são escritos, visualizados por terceiros e aprovados por um redactor chefe, e onde determinadas situações, como erros de português e falhas na informação técnica nunca deveriam passar sem ser detectados.

Um desses órgãos, talvez o mais importante a nível nacional, é o Jornal de Notícias, um jornal que já existe desde 1888 e que apresenta uma tiragem média de 104 mil exemplares diários. Torna-se por isso quase ridículo que um Jornal com esta importância permita a associação ao seu nome de artigos com informação técnica incorrecta e ainda por cima com o uso de palavras que, para além de não existirem no dicionário de língua portuguesa, estão mal usadas.



Mas passamos a explicar:

Falamos concretamente de um artigo assinado por uma jornalista de nome Ana Rita Guerra, publicado no suplemento semanal fornecido aos sábados pelo JN, o Dinheiro Vivo, e que pode ser lido aqui, dedicado ao lançamento do iPhone 4S, com o sugestivo nome de: Apple: a montanha pariu um iPhone 4 e meio.

É certo que este pequeno suplemento nada tem directamente a ver com o JN (apesar de serem ambos do grupo Controlinveste), mas é também verdade que é um suplemento que, por opção do JN, é fornecido aos seus leitores e que, como tal, deveria zelar por garantir que a informação que por lá circula é correcta.

Este pequeno suplemento, que acaba por ser um jornal só por si e até tem um site, poderá ter a sua qualidade, e isso nem discutimos, mas seja como for nada invalida a má informação prestada no artigo em causa. Diga-se que normalmente este suplemento até me passa ao lado, mas no entanto dado que a temática do artigo era do meu interesse, resolvi ler o mesmo, e eis o que tenho a assinalar:

Citando directamente do artigo:

Na essência, a Apple quitou o iPhone 4 para se ajustar aos avanços da concorrência, incluindo ao Samsung Galaxy S II e ao Motorola Droid Bionic (que não chegará à Europa)

Repare-se no início da frase o uso do termo quitou. É que para quem não se apercebeu há aqui uma clara confusão com o termo “kitou“, um derivado da palavra “kitar” usado na gíria Portuguesa e cujo significado significa alterar, modificar, personalizar, transformar… em suma, recriar.

Esta não é contudo uma palavra que esteja no dicionário de língua portuguesa, pelo que o seu uso pela imprensa escrita deveria ser mais controlado, ou então, colocada entre aspas.

No entanto, a jornalista, cuja qualidade questiono uma vez que não a conheço o suficiente para me pronunciar nesse sentido, não se limitou a escrever mal a palavra, mas trocou-a por outra que, essa sim, existe no nosso dicionário, derivada do termo quitar, e que significa: Pagar o que se deve, perder, tirar, ser dispensado de fazer alguma coisa, satisfazer. O uso mais comum deste termo é em frases do género “estamos quites”.

Mas o pior é, a meu ver, o que vem a seguir, com grandes falhas na informação técnica prestada.

Citando mais uma vez:

A principal inovação é a substituição do processador A4 pelo dual-core A5, o mesmo que alimenta o iPad 2. Ou seja, a capacidade de processamento será sete vezes superior à do iPhone 4, com melhores gráficos e transição entre aplicações à velocidade da luz.



Se o primeiro parágrafo nada possui de errado, as conclusões tiradas no segundo, e derivadas do escrito antes, são totalmente absurdas. Há aqui falta de conhecimentos técnicos e grande confusão na informação prestada.

Ora todos sabemos que em dois processadores idênticos, sendo um um single-core e o outro um dual-core não obtemos sequer o dobro da performance, e explicamos o porque:

É uma realidade que dois núcleos independentes podem trabalhar em tarefas separadas ao mesmo tempo, o que basicamente significaria de forma teórica que o poder de processamento é dobrado. MAS, e há um grande MAS, há partes do CPU que acabam por ser partilhadas por ambos os núcleos, o que acaba por impedir esse ganho teórico.

Quanto se ganha então com uma duplicação de núcleos? Não há uma resposta certa e depende dos algoritmos usados no software e a forma como são implementados. De forma mais particular tudo depende da fracção do software que pode ser paralelizada para correr nos vários núcleos em simultãneo: é a Lei de Amdahl’s. E não se esqueçam que mesmo dois programas totalmente separados, a correr cada qual no seu núcleo acabam por partilhar algo em comum, o sistema operativo, a placa gráfica, os canais internos, etc, pelo que os resultados acabam por ficar sempre dependentes da qualidade da implementação do suporte multi-processador do mesmo.

Ora só por aqui se vê que o processador A5, até porque opera à mesma velocidade de relógio, dificilmente poderia trazer ganhos de até 7 vezes, isto apesar de o A5 apresentar outras melhorias que permitem que a Apple efectivamente o considere como possuindo o dobro da performance do A4.

De onde vem estão este erro? Muito simplesmente das novas performances a nível gráfico que foram conseguidas com a troca da placa gráfica que equipava o iPhone 4, a PowerVR SGX535. É que a PowerVR SGX543MP2 GPU afirma-se até 7 vezes mais rápida do que a sua irmã mais velha, mas estes são ganhos conseguidos apenas a nível gráfico, e devem-se à placa gráfica e não ao facto de o CPU ser dual-core. A confusão agrava-se quando a SGX543MP2 possui um GPU dual-core, o que terá sido o factor decisivo para este imbróglio.

Para terminar, que fique bem claro que não há aqui qualquer intenção de atingir a jornalista em questão. Erros, todos cometemos e a qualidade da jornalista, como já foi referido, por a desconhecer nem me atreveria a por em causa. A minha surpresa passa pelo facto de um jornal que deveria ter elementos que verificam e filtram todos estes erros, deixam passar uma notícia assim, e mais ainda quando este jornal DinheiroVivo aparece como suplemento semanal do jornal mais importante a nível nacional, o JN.

É que há efectivamente quem não perceba nada disto, e quando o JN, mesmo que num suplemento, o afirma, passa “a ser lei”.

Deixem-me ainda terminar com mais uma pequena referência à seguinte frase, igualmente do artigo:



A arquitectura de recepção também foi melhorada, o que faz que este seja um telemóvel 3,5 G – os downloads passam a ser feitos em metade do tempo.

Se esta frase fosse usada por um operador (Vodafone, TMN ou Optimus), estaríamos todos a queixarmos-nos que se tratava de publicidade enganosa.

É que se o iPhone 4 apenas pode atingir 7,2 Mbits de velocidade, e o 4S pode atingir os 14,4, não é pelo simples facto de se suportar esta tecnologia superior que se duplica a velocidade de downloads. É que como sabemos continuamos dependente da largura de banda que nos é atribuída pelo operador, e isto independentemente das capacidades do aparelho. Por esse motivo, a frase feita em tom de afirmação seria verdadeiramente correcta se fosse “os downloads podem ser feitos em metade do tempo”.



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