Como a industria do entretenimento se está a tornar num aproveitamento do vício

Muitos jogadores não se apercebem, mas estão viciados no Gaming… E a industria cada vez mais aproveita-se desse vício.

Quando a industria dos videojogos arrancou o que havia eram grupos de pessoas inovadoras, trabalhando em garagens ou em casa, que arriscavam num mercado incerto com pequenos programas que lhes poderiam dar algum a ganhar, ou leva-los à falência.

Mas actualmente a coisa não é bem assim. A industria evoluiu para empresas com valor de vários milhões de dólares, onde psicólogos, neurocientistas e pessoas com experiência de marketing, mais do que tentarem vender os seus jogos, tentam arranjar formas de viciar as pessoas nos mesmos.

Há aliás um novo termo, conhecido de poucos, os baleias usado para designar pessoas tão viciadas nos jogos que são capazes de gastar tudo o que economizaram para continuarem a jogar. Estas pessoas atualmente representam menos de 2% da população activa nos videojogos.

Ainda é possível recordarmos dos anos 80 e 90 onde empresas como a Sierra Entertainment, os criadores da saga King’s Quest e Space Queste eram uma equipa de duas pessoas, marido e mulher. Mesmo Half Life, de Gabe Newell, foi um projecto iniciado como um hobby.



Mas isto mudou muito nos últimos tempos, particularmente os últimos 10 anos.

Com o aparecimento das plataformas moveis e o jogo casual, a industria teve um boom, e empresas gigantes como a King, Halfbrick, Zynga e a Kabam apareceram.

Estas empresas adoptaram uma estrutura de empresa, com relações públicas, departamentos de marketing, e os já referidos psicólogos e neurocientistas e que nos conseguem vender o mesmo jogo ano após ano, apenas com algumas alterações.

Exemplos mais claros são as série Fifa e PES, mas outras como Assassins Creed, Halo, Call of Duty ou Uncharted são jogos com elevados números de venda que se baseiam em sequelas. E estamos a falar de jogos com orçamentos gigantes que podem chegar aos 250 milhões… valores astronómicos nunca antes vistos, mas que vendem sempre pelo simples facto de carregarem um nome.

Recentemente a exploração do vício atingiu um novo extremo com os jogos gratuitos de serem jogados. Clash Royale por exemplo é um jogo 100% gratuito, mas que é dos que mais receitas gera. O segredo é o levar o cliente a pagar vezes e vezes sem conta. Um jogador regular de Clash Royale terá já pago mais por esse joguinho do que a Rockstar recebeu por GTA V dos seus jogadores mais ativos. É a exploração do vicio usando técnicas diversas normalmente associadas a casinos.



O uso de gemas em vez de dinheiro afasta um pouco a ideia do custo real das mesmas. Elas podem ser caras (e são), levando o cliente a queixar-se na altura da compra. Mas depois, o afastamento do valor do dinheiro para o uso das gemas funciona. Aliás há vários estudos que revelam que casos do género aplicados à vida comum, como o uso de um cartão de débito em vez de dinheiro real, leva as pessoas a gastarem mais. São técnicas que funcionam.

Depois há outras técnicas, como o travamento ao progresso. Clash Royale, por exemplo, aposta igualmente nisso. As baús demoram horas a serem abertos, alguns demoram mesmo dias! E acelerar isso só com gemas… que só se obtém em quantidade pagando dinheiro real.

Basicamente as transações nos jogos não são inocentes e não são meras opções. Elas estão lá porque funcionam e dão muito dinheiro a ganhar. E porque estudos mostram que o vicio leva as pessoas a apostar nisso. Elas pagam, queixam-se do valor, mas são capazes depois de repetir a dose. E quando vamos a ver, jogos gratuitos já levaram mais dinheiro do que a maioria dos pagos.O travão a estas situações está meramente nas pessoas. Que necessitam de deixar de serem agarradas a marcas, a ideologias e a conceitos. Precisam de ver o que aquilo que lhes tentam vender pode trazer de bom, mas igualmente de mau. O timming deste artigo não é inocente. Porque recentemente falamos da ideia da EA em trazer ao mercado uma plataforma independente do hardware, e onde na nossa análise a essa ideia fizemos ver que nem tudo são rosas, e os riscos para o mercado que tal pode trazer.A realidade é que a EA está a proveitar-se do vicio, tentando fazer passar uma ideia de que o pode alimentar por menos dinheiro. Mas a EA não pretende ganhar menos dinheiro! E deixarmos-nos iludir por isso… é pouco inteligente!