Drive UHD. Necessidade ou apenas um extra dispensável?

A discussão não tem uma resposta única. E as opiniões são diversas, com a Sony e a Microsoft a terem ambas razão nos motivos apontados para as suas escolhas.

Consolas 4K com drive de UHD, ou sem drive de UHD. Esta tem sido a discussão do momento!

Sony e Microsoft apostaram em escolhas diferentes no que toca à inclusão de uma drive UHD nas suas consolas mais recentes. A Xbox One Slim (ou S como ficou conhecida), optou pela sua inclusão. Já a PS4 Pro, optou por não a colocar!

Ambas as consolas possuem a capacidade de ligação a TVs 4K, e apesar de a PS4 ser a única das duas capaz de conteúdo nativo 4K, a realidade é que os seus 4K a nível de filmes UHD só podem ser obtidos por meio de serviços de streaming, uma vez que o seu leitor não lê os BD físicos vendidos com filmes nesse formato. A Xbox One S, apesar de se limitar a usar os 4K para reescalar os jogos ainda processados na mesma resolução que na Xbox One original, é capaz de reproduzir estes filmes sem qualquer problema.

Com a 4K a conseguir graças a esse corte um preço competitivo que é apenas 50 euros superior ao da Xbox One S com disco equivalente, a polémica disparou!



A Microsoft tem vindo a mostrar-se surpresa pela escolha da Sony em não ter colocado uma drive UHD na PS4, após ter colocado uma na sua Xbox One. Já os seus fans consideram a PS4 Pro uma consola incompleta ao não oferecer acesso ao formato físicos de filmes 4K, limitando-se ao seu acesso  por streaming!

Por parte da Sony esta argumenta que a drive é apenas um extra e que os seus estudos revelam que a percentagem de utilizadores que visualizam filmes usando a drive não justificava o investimento optando-se antes por uma consola mais competitiva a nível de preços, e excluindo a mesma. Os seus fans consideram que as frases da Microsoft na realidade são apenas consequência de a sua consola ao ter o leitor de UHD associada a todas as restantes novidades fica sem margem de manobra para se tornar mais competitiva ao não poder descer o preço sem tal trazer prejuízos por cada unidade vendida.

Naturalmente as ideias dos fans, são as ideias dos fans, e nem as vamos discutir aqui pois teorias da conspiração existem de ambos os lados. Mas quanto aos argumentos de ambas as empresas, quem tem razão? Ou melhor, dado que razão é algo demasiadamente difícil de apurar aqui, vamos antes questionar, quem tomou a melhor decisão?

No fundo, ambas as decisões basearam-se apenas numa questão de perspectiva e na forma como ambas as empresas encaram os seus produtos!

A Microsoft, desde o lançamento da sua nova consola que tem tomado a sala de estar como o seu foco. A consola aliás deve o seu nome algo infeliz e polémico, ONE, ao facto de esta pretender ser o único (The One) aparelho multimédia necessário numa sala de estar.

Já a Sony com a PS4 abandonou a ideologia de uma consola forçosamente destinada a dominar a sala de jantar. A sua consola é agora exclusivamente centrada no jogador e não no local, e isso reflecte-se no seu slogan “This is for the Players”.

São conceitos e ideologias diferentes, e que tiveram igualmente aceitação diferente no mercado ao longo da vida das consolas.

E basicamente estas posturas reflectiram-se agora novamente nas escolhas. A Microsoft lançou a Xbox One S, uma consola com capacidade de saída vídeo a 4K, e equipou-a com um leitor de filmes Ultra HD, algo que mantêm alguma origem no seu conceito de equipamento central de uma sala.

Já a Sony lançou a sua PS4 Pro, igualmente com saída de video a 4K e capaz de processar jogos nessa resolução, mas sem o leitor de filmes UHD. Baseando-se em estudos de uso da PS4 para leitura de filmes em formato físico, estes revelaram que a percentagem de utilizações que usava a consola para esse fim era bastante diminuta, não justificando assim o custo da drive. Dessa forma, com a ideologia do jogador em mente, o preço e a facilidade de acesso dos jogadores à consola tomou maior proporção do que o acréscimo de algo que é um extra e considerado pela Sony como pouco relevante numa máquina pensada com o grande objectivo de jogar jogos.

São escolhas!

Vamos ver os dois lados da situação, para percebermos como ambos têm razão!

Para começar, vamos analisar a realidade das empresas para percebermos que os estudos da Sony são efectivamente válidos e relevantes!

Se a Microsoft é uma empresa de software, a Sony não o é! Desde a sua génese que a Sony está ligada a multimédia e ao cinema. É uma empresa ligada ao entretenimento e com um historial na área que poucas empresas se podem orgulhar de possuir. Ainda hoje, apesar de cortes enormes nas divisões de hardware, todas as componentes multimédia e de entretenimento existem, com a Sony a alcançar áreas como o cinema e distribuição de música e de filmes. É igualmente uma empresa que esteve na génese da criação dos formatos de CD, DVD e BD, e que tem toda a vantagem no seu uso generalizado pelo pagamento de royalties que tal lhes trará caso o formato se espalhe (sim, a Microsoft paga à Sony por cada drive de Blu-Ray colocada nas suas consolas).

Daí que se a Sony resolveu não apoiar o UHD nesta fase, alegando que os seus estudos revelam que a visualização online se tem revelado esmagadormente maioritária, tal terá sido certamente fruto de uma análise cuidada e de uma análise da realidade de mercado que a empresa está, como poucos, apta a fazer. E foi exactamente isso que a Sony anunciou como razões para a decisão.

Basicamente uma drive UHD serviria duas funções. A de fornecer discos de maior capacidades e a de reproduzir filmes 4K!

E se a primeira função se pode vir a revelar relevante um dia para aumento da capacidade de armazenamento de dados, podendo ainda ser uma escolha em futuras consolas, actualmente ela revela-se irrelevante quer para a PS4 Pro, quer para a Xbox One S, uma vez que estas consolas usam os discos Blu-Ray dual Layer da PS4 e Xbox One originais, já a questão da reprodução dos filmes 4K é realmente algo que a Xbox One S oferece e que a PS4 Pro não!

Daí que a questão é clara. Há ou não uma benesse com a Xbox One S? Há ou não uma lacuna na PS 4 Pro?

Na realidade uma situação não implica a outra. A Benesse realmente existe na Xbox One S, mas daí a considerar-se que tal é uma lacuna na Pro, é outro assunto! Eis a minha experiência pessoal e que me leva a referir tal:

Sou, e sempre fui fan de cinema. Adoro ver filmes, e sempre adorei! E nesse sentido, quando era mais novo, possuí largas centenas de cassettes VHS com filmes. Era jovem e com tempo, pelo que adorava coleccionar cassettes, especialmente com Manga e adaptações de BD. E a verdade é que nesta fase o multimédia era limitado e as cassettes video eram a única forma de se usufruir de filmes, sendo que com o custo das cassettes sendo barato, tudo o que dava na TV era gravado e mantido.

Mas quando o DVD apareceu… converti-me imediatamente! A qualidade de imagem, e a ausência de problemas com a degradação das fitas das velhas cassettes, bem como das necessidades de rebobinar convenciam qualquer um. E nesse sentido a muita da minha colecção de filmes em VHS, os melhores e que realmente justificavam, passou para DVD.



Mas a parte relevante a ter em conta é que foi apenas a maior parte. E das largas centenas de cassettes VHS apenas mantive algumas boas dezenas de filmes em DVD. O custo dos filmes era elevado e pagar uma segunda vez por eles não era algo que agradasse muito.

Mas outro dos motivos pelo qual a dimensão da minha colecção paga diminuiu foi que a era do DVD foi uma era de mudança. A Internet entrou na era da banda larga e a partilha de ficheiros com ela. Daí que o DivX aparece em força e com ele os filmes piratas de que quase todos usufruímos em maior ou menor parte, até porque nessa altura as questões da pirataria ainda não eram algo discutido e, devido à proximidade da era dos gravadores VHS, poucos viam grande diferença entre o sacar um filme da internet face ao gravar filmes da TV.

Foi graças a essa mudança de realidades que a necessidade de comprar filmes em DVD diminuiu face ao VHS. No fundo a colecção de filmes não diminui, até aumentou, mas a necessidade de comprar os mesmos sim. Daí que a minha colecção de DVDs, ainda existente, diminuiu tremendamente face ao que existia no VHS.

E essa situação repetiu-se novamente, apesar de não necessariamente pelos menos motivos, com o Blu-Ray!

A minha colecção de filmes em Blu-Ray é bastante menor do que a minha colecção DVD. Os filmes em BD fascinaram-me no início, especialmente pela qualidade, o que levou à aquisição de bastantes. Mas rapidamente serviços de visualização online como o Netflix, ou os clubes de video dos ISPs levaram a que a sua compra e preço elevado praticado no formato físico não justificasse. Um filme em BD custa perto de 30 euros, o que permite quase 3 meses de Netflix onde posso desfrutar dos mesmos em resoluções até 4K+HDR. Mas mais do que isso, os serviços Netflix acrescentam conteúdo regular, e o custo da mensalidade dá-me acesso legal e sem restrições a milhares de títulos, sejam eles filmes ou séries, com continua colocação de novo conteúdo, muito dele exclusivos e que nem sequer posso encontrar em outros locais.

Resumidamente a compra dos filmes físicos é algo que actualmente deixou de me interessar como antes. Isto porque a minha livraria aumentou radicalmente e para valores com que nunca sequer sonhei com a simples adesão a estes serviços, agora completamente legais.

E esta é a minha realidade. Uma realidade na qual o Blu-Ray interessa-me mais para armazenamento da grande quantidade de dados usada pelos jogos do que para outra coisa, sendo que só adquiro filmes neste formato que pretendo ter em 3D, uma opção não disponível no Netflix ou nos clubes de video dos ISPs.

No entanto, se bem se recordam, um dos motivos pelos quais sempre afirmei aqui na PCManias que as promessas da Cloud da Microsoft para a Xbox One não passavam disso mesmo, de promessas, deveu-se à constatação de que a minha realidade não é a existente em todo o mundo. E que na realidade, nem todos são assim tão privilegiados como eu, possuindo a minha de qualidade de serviço internet. Há aqueles que se encontram limitados quer nas larguras de banda disponíveis, quer na qualidade da ligação, quer na quantidade de dados que podem transferir mensalmente, ou mesmo os que não possuem internet. E essas pessoas, claramente não estão na mesma situação que eu!

Daí que há que reconhecer que o leitor de UHD é, para esses, uma excelente opção, e uma das poucas formas de se ter acesso a conteúdo 4K. Muitas vezes nem é uma questão de essas pessoas poderem ou não pagar por ligações melhores, e serviços como o Netflix, é mesmo uma questão de no local onde habitam não possuírem ligações à internet que permitam velocidades, qualidade e o uso de tarifários sem limites de tráfego.

Diria assim que nesse sentido terei de reconhecer que o leitor de UHD é, especialmente para essas pessoas, uma mais valia de enorme valor!

E, curiosidade ou não, esses foram os argumentos de Phil Spencer para justificar a escolha do leitor UHD:

I know that if you look at usage on the box, you would say ‘Hey, everybody is watching YouTube, everybody is watching Netflix. Why would you do anything physical?’ But I do think markets where bandwidth capabilities and caps, and cost is prohibitive. So we wanted to make the decision that there would be physical media. I think for us games and the native rendering of 4K games is going to be important for Scorpio, which obviously alleviates any kind of need to stream. But I think we’ve been conscious that not everybody lives in a bandwidth happy, uncapped world.”



Traduzindo:

Sei que se olharmos para uso fora da caixa diriam ´Hey, toda a gente está a ver YouTube, a ver Netflix. Porque quereriam algo físico? Mas eu penso em mercados onde há larguras de banda e limites de tráfego ou custos proibitivos. Daí que quisemos tomar a decisão de existir media física. Penso que para nós os jogos e o render na resolução nativa de 4K será importante para a Scorpio, o que alivia as necessidades de Stream. Mas estamos conscientes de que nem todos vivem num mundo de felicidades de largura de bandas e sem limitações.

Todos estes argumentos são mais do que válidos. Extremamente válidos!

Resumidamente, o que vemos é que ambas as empresas tiveram razões mais do que válidas para a escolha que fizeram!

E nem sequer podemos dizer que a Microsoft está com isto a defender um leitor UHD em vez da consola, caindo nos erros iniciais pois curiosamente, esta semana Phil Spencer deu uma entrevista onde referiu o seguinte.

When we came in after two-and-a-half years ago and started running the Xbox program, I centred us back on not trying to become something other than a game console. You don’t earn the right to be relevant in other categories of usage for the console until you’ve earned the gaming right, so let’s go make sure that’s what we deliver

Traduzindo:

Quando entramos à dois anos e meio atrás e começamos a correr o programa Xbox, eu centrei-nos de volta em não querermos ser mais do que uma consola de jogos. Não se ganha o direito de se ser relevante noutras categorias de uso para a consola até ganharmos esse direito nos jogos, pelo que vamos garantir que vamos entregar.

Mais uma vez um conjunto de palavras com o qual concordo totalmente! E se há coisa que com Phil Spencer a Xbox ganhou, foi o seu espaço e o direito a ser reconhecida como uma grande consola.

Resumidamente, não consigo criticar nenhuma das escolhas uma vez que vejo argumentos muito válidos para ambas, e cada empresa sabe da sua realidade melhor do que ninguém, e que nichos de mercado lhes interessa alcançar.



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