O “whataboutism” nos comentários da PCManias

Uma das coisas que mais tem chocado ao longo dos tempos é a forma como certas práticas de propaganda de regimes comunistas e controlados tem vindo a aparecer nos comentários da PCManias. E isso é algo que nos entristece muito pois vai contra o que sempre foi o espírito de discussão útil e informada que se pretende na página!

Hoje vamos fugir às notícias habituais para falar de algo diferente. Basicamente este é um artigo que andávamos para escrever há muito, e dado que ano novo, vida nova, não há melhor altura do que esta para se publicar o mesmo! Note-se que mesmo que o possam achar, até pelos exemplos dados no artigo, ele não é escrito pensando em alguém ou em algum grupo em particular, mas não. Ele é suposto ser intemporal e dirigido a todos os fanboys, independentemente de marcas. A ideia é que todos os que possuem práticas do género, reflictam sobre as suas atitudes, e naquilo que são situações que, quer reconheçam ou não, são burlas de escrita destinadas a desviar atenções dos assuntos em causa.

Passemos então ao artigo

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Com a criação da PCManias o objectivo era simples. Trazer uma discussão educada, técnica e isenta sobre as realidades da tecnologia (mais recentemente das consolas). Ignorar marcas, ignorar paixonetas, e abordar os assuntos que rodeiam o dia a dia das notícias de forma objectiva.



Mas tal não se revelou assim tão simples! Não só as pessoas ideais para esse tipo de conversa não aparecem em grande quantidade (agradece-se por isso aos que cá estão), como a comunidade, de uma forma geral, e mais particularmente a das consolas às quais temos dedicado mais atenção nos últimos anos, não consegue abordar a realidade das coisas de forma isenta e desprovida de paixões por marcas. E vendo a sua marca favorita a ser criticada, reagem!

Infelizmente a comunidade Gamer está tóxica. Está impregnada de fanboys obcecados que se recusam a analisar as coisas pelo que efectivamente elas são! Já escrevemos várias vezes sobre isso!

Mas quer se queira ou não, as coisas são o que são. Agradam mais a uns, desagradam a outros! As notícias são aquilo que existe, não são inventadas, e no fundo quem as faz são as próprias marcas  com as suas políticas, decisões e atitudes, e não o mensageiro. Para esse a ideia é comentar o sucedido, comparar com o que outros fazem, e nessa medida elogiar ou criticar, sendo que neste último caso, a ideia é esperar que se faça melhor.

E é aqui que entra o diálogo que se pretendia. Que pode ser entre meros entendidos, com os fans… ou meter pelo meio fanboys!

O fanboy distingue-se do fan exactamente porque o primeiro vive naquilo que, em artigos anteriores, chamamos de um universo de unicórnios cor de rosa. Para estas pessoas as realidades do mundo passam ao lado, sendo que, independentemente do que se passa, e da forma como a sua marca preferida está a evoluir comparativamente ás restantes, o que se pretende é ler coisas boas, esquecendo-se que os produtos que gostam existem num mercado onde há concorrência, e que é o seguir as regras desse mercado a um nível que traga mais satisfação que dita o maior sucesso ou insucesso dos produtos. Dizer-se que algo está bem só porque agrada a um pequeno número de pessoas, mas não ao mercado no seu global é hipocrisia, mas é isso que estas pessoas gostam de ouvir. Já o Fan, esse vive no planeta terra, tem consciência das realidades e do que se passa de uma forma mais generalizada, e mesmo gostando do que gosta, critica o que há que criticar, não porque quer dizer mal, mas porque não ignora as realidades e deseja que a situação melhore e que o produto que possui prospere no mercado mostrando-se um investimento digno desse nome.

Ora aqui somos fans… Mas não de marcas, mas de jogos! É um hobby! Não é uma obsessão, mas é uma paixão na qual dedicamos o nosso tempo! E nesse sentido, querendo deitar a mão aos bons jogos, não dizemos, ao contrário do que os fanboys dizem, que os jogos da marca A ou B não nos interessam! Na realidade eles interessam todos, desde que sejam bons, e sem dúvida que a maior parte dos exclusivos consolas são bons! E é por isso que aqui na PCManias somos multi marca, jogando onde quer que os jogos estejam. É por isso que temos uma visão generalista do que é o mercado, e daquilo que vende. Basta olhar para o que as marcas com maior sucesso estão a fazer e comparar! Não é assim tão difícil como muitos outros leitores activos na discussão o comprovam, basta não se ter uma visão fechada!

Mas uma consequência de um diálogo entre um fan que analisa e critica aquilo que acha mal, usando argumentos sustentados em dados reais e comprovados, e um fanboy é o aparecimento constante do “whataboutism”!

Para quem não sabe o que é o “Whataboutism”, fique a saber que não é um termo inventado por nós! É uma realidade estudada, e que  pode ser traduzido em Português pelo “E então o”.

Acima de tudo, o importante é saber-se que ele é reconhecido como uma falácia lógica, e é uma variante da falácia conhecida como tu quoque que, na falta de argumentos pálpáveis que contrariem o que é dito, tenta descredibilizar a posição de uma pessoa, entre outras coisas, dando a entender que esta está a ser hipócrita, mas que acontece sem refutar ou desacreditar de forma credível, os seus argumentos.

Dado que muitos dos nossos leitores são Brasileiros e podem desconhecer o termo, falácia pode ser descrito de forma muito simples e básica como: “um raciocínio errado com aparência de verdadeiro”, ou se quiserem, “Sofisma ou engano que se faz com razões falsas ou mal deduzidas”!

Este tipo de situação está por norma associado a regimes controlados e ditatoriais, sendo largamente usado pela propaganda Soviética. Neles a falácia é aplicada com o uso da frase “E então o…”, seguido de um evento Ocidental comparativo.

O jornal The Guardian chegou a considerar que esta prática é praticamente uma ideologia nacional Russa. E basicamente quem estudou um bocadinho da história da União Soviética reconhece estas práticas  controladoras e enganadoras, destinadas a desviar o foco da discussão real do assunto em causa, como comuns.



Num exemplo muito comum, imaginemos que o website colocava um artigo que criticava uma situação qualquer. Melhor ainda, pois não queremos que a coisa seja mal interpretada, vamos usar um exemplo prático, com algo que aqui sucedeu e que criticamos, a colocação dos exclusivos Xbox no PC!

O que aconteceu foi que os fanboys da marca, não podendo contra argumentar pois a realidade era palpável, surgiram com o “Whatboutism”, logo dizendo “E então o PS Now? Também não leva os jogos da Playstation para o PC?”

Como se percebe, há aqui uma acusação de hipocrisia implícita neste tipo de atitude. Como é que alguem se atreve a referir isso, esquecendo que há do outro lado algo semelhante?

É o tal raciocínio errado com aparência de verdadeiro, pois independentemente do que é dito, e da razão pontual que os assista, este argumento não é mais do que uma forma de se fugir à discussão, e de se criar um auto conforto perante a situação através de uma acusação de hipocrisia.

Onde está a burla no raciocínio? No presente caso, o PS Now é um serviço que não está em vigor na maior parte dos países do mundo, e é um serviço com uma taxa de adesão muito pequena. Os exclusivos Xbox passarem directamente para o PC, o maior mercado do mundo a nível de dimensão da plataforma, não é comparável. A maior parte dos lares possui um PC (adequado ou não), mas quantas pessoas conhecem com o PS Now?
Mas mesmo que haja um assunto comparável, e com iguais proporções, a falácia existe sempre! Não é porque o Manuel também roubou que se desculpa o João de roubar! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e desde que se trate ambas da mesma forma não há aqui nenhuma falácia.

O mal/falácia surge quando se critica o Manuel, mas depois quando João faz igual, se arranjam argumentos para não se tomar igual atitude perante ele! Algo que aqui na PCManias não nos podem acusar. Não só criticamos os jogos PS4 no PSnow, como criticamos os jogos Xbox One no PC. Tanto criticamos a PS4 Pro como criticamos a Xbox One X. A coerência é algo que não nos podem acusar de não ter!

Mas aqui, nestas respostas de Fanboy, estamos perante a tal falácia lógica que, como foi dito, é comum em regimes que tentam controlar a opinião pública com propaganda, e que, no fundo, em nada invalida o que está em causa!

Argumentar “E então o” é apenas uma forma de auto conforto e de se fugir a uma discussão tentando trazer assuntos semelhantes para a baila. Mais ainda é uma forma a se tentar desarmar e desacreditar com hipocrisia os argumentos apresentados, sem no entanto os refutar. E apesar do exemplo de cima, deixo claro que isto já aconteceu aqui, quer para o lado da Microsoft, quer para o lado da Sony. É aliás dos argumentos mais usados nos comentários quando os fanboys se degladiam.

Mas o “Whataboutism” não é a única falácia que vemos aqui! A táctica mais recente que por aqui apareceu é diferente. Essa já passa pela falácia formal!

A falácia formal é um engano muito bem estruturado, e obtida de forma dedutiva. É uma dedução deturpada, claro, mas pela forma como deduz, parece mostrar coerência na criação do argumento.



Num seminário universitário da Universidade do Texas, em El Passo, foram discutidos os principais tipos de falácias utilizados para se tentar remover argumentos, e que podem ser encontrados aqui, sendo que nos chamou a atenção um deles por ser o aplicado aqui. É, curiosamente, denominada, o argumento da ignorância.

Nele é dado o seguinte exemplo: “Algumas das provas principais estão em falta, incompletas ou falsificadas! Isso prova que estou correcto!”

Basicamente, o que isto mostra é uma dedução errada. Especificamente na frase de cima, mesmo que sejam verdade os argumentos apresentados, não é por eles ou só por eles que se pode concluir que a pessoa está correcta, ou que o outro está errado. É apresentado uma série de factos, mas com uma conclusão que, apesar de soar a correcta, não o é forçosamente! Aqui o estudo mostra que se usa o argumento “se não provas ou não consegues provar, então estou certo”! Uma falácia!

Esta frase tem uma grande semelhança com uma que tem vindo a ser usada aqui nos argumentos por muitos fanboys Xbox: “Se não mostras/partilhas a gamertag, a tua opinião não vale nada!”

Basicamente é exactamente a mesma coisa. É um argumento baseado no mesmíssimo principio, o que que “não se podendo provar, então é porque é como eu digo”.

Naturalmente o revelar ou não a Gamertag é uma opção e mesmo um direito. Ninguem entra numa loja e pede o curriculum vitae ao funcionário que o atente. Quando muito julga-o por aquilo que considerou ser a sua qualidade de atendimento. Este é o tipo de conclusão que parte baseada numa presunção. É uma falácia, uma burla, onde na falta de melhores argumentos ela aparece destinada a tentar minar os argumentos apresentados e descredibilizar quem os referiu. Como referido, é denominado o argumento da ignorância, um nome que, curiosamente, achamos que se adequa aqui de forma mais do que perfeita.

Este conjunto de táticas são cada vez mais comuns na sociedade. E tendo-se consciência das mesmas há que se ser superior a elas.

Aliás o que temos visto é que quando os fanboys que vão aparecendo por este site vão sendo contrariados sucessivamente nos seus argumentos falaciosos com dados concretos, mais cedo ou mais tarde estes acabam sempre por cair no mesmo lugar comum. O insulto!

E assim vai a comunidade, tentando arrastar a credibilidade dos websites pelo caminho, e indo contra aquilo que sempre foi a intenção desta página. A discussão informada!

 

Para uma informação mais geral do “whataboutism”, leiam este artigo.



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