Xbox One Scorpio – Veneno em estado puro

A revelação das especificações da futura Scorpio da Microsoft deram a conhecer o que faltava sobre a mesma. E se na Xbox One a Microsoft espalhou-se por completo, a Scorpio é uma obra de arte de engenharia

Começemos por simplificar todo este artigo dizendo: Estou impressionado!

A Microsoft esmerou-se com a Scorpio, e agora sim vemos na sua nova consola aquilo que sempre acreditamos que a Microsoft poderia fazer.

A Microsoft conseguiu aqui um feito deveras notável. Conseguiu espremer duas tecnologias já consideradas obsoletas, criado uma consola de meio de geração que, na realidade, acaba por ser muito mais do que isso. E para que não interpretem mal aquilo que é dito, explica-se já: A Scorpio é uma consola que, dependendo do preço… justifica plenamente a sua compra.

É muito, mas muito mais do que é a PS4 Pro. Se a PS4 Pro é basicamente uma PS4 capaz de atingir 4K, a Scorpio é verdadeiramente uma consola de meio de geração. Uma consola pensada para um dia poder vir a ser uma base para a futura geração, tal e qual a Xbox One se situa agora. É por isso um investimento bem melhor que uma PS4 Pro.



Para percebermos isso, bem como muitas das escolhas da Microsoft, nada como começarmos pelas especificações, comparando a consola com Xbox Base, e já agora, com a PS4 Pro:

Project Scorpio Xbox One PS4 Pro
CPU Oito núcleos Jaguar x86 customizados x86 a 2.3GHz  Oito núcleos Jaguar customizados a 1.75GHz Oito núcleos  Jaguar customizados a 2.1GHz
GPU 40 unidades de computação customizadas a 1172MHz 12 unidades de computação GCN a 853MHz (Xbox One S: 914MHz) 36 unidades de computação GCN a 911MHz
Memory 12GB GDDR5 8GB DDR3/32MB ESRAM 8GB GDDR5
Memory Bandwidth 326GB/s DDR3: 68GB/s, ESRAM com max. 204GB/s (Xbox One S: 219GB/s) 218GB/s
Hard Drive 1TB 2.5-polegadas 500GB/1TB/2TB 2.5-polegadas 1TB 2.5-polegadas
Optical Drive 4K UHD Blu-ray Blu-ray (Xbox One S: 4K UHD) Blu-ray

Basicamente olhando para a Project Scorpio e a PS4 Pro vemos enormes semelhanças. O CPU é o mesmo mas com uma diferença de 200 Mhz de velocidade a favor da Microsoft. O mesmo se passa com o GPU, ambos Polaris, sendo que o da Sony apresenta 36 unidades de computação a 911 Mhz, mas o da Microsoft, numa surpresa inesperada, supera o limite do Polaris, apresentando 40 unidades de computação (o Polaris genérico está limitado a 36 unidades), sendo que há ainda 4 unidades adicionais desligadas por defeito para melhor aproveitamento de fabrico. Certamente aqui temos uma unidade algo híbrida, já com muita tecnologia Vega aqui incorporada, o que é demonstrado pelo facto de o GPU correr a 1172 Mhz, o que é apenas apenas 94 Mhz a menos que o máximo da arquitectura Polaris, e uma velocidade de relógio nada comum de ser vista em consolas. Isto é conseguido com refrigeração liquida (uma arquitectura de refrigeração que a Microsoft denomina de Vapor Chamber), um sistema de ventilação centrifuga, e uma gestão dinâmica dos consumos do sistema, com variação das velocidades de relógio conforme as necessidades.

Impressionante e inovador.

Basicamente o que temos aqui é a mesma história do passado, onde claramente ambas as empresas voltaram a apostar nas mesmas arquitecturas, mas desta vez, nas consolas de meio de geração, foi a Microsoft quem levou a melhor a nível de performance, e diga-se mesmo, em todos os restantes aspectos.

No entanto é de notar que muitas das escolhas da Microsoft acabaram por ser forçadas, sendo que à partida seriam mesmo consideradas desnecessárias face ao que estas consolas de meio de geração pretendem oferecer. Um dos casos é a escolha da GDDR5 com uma largura de banda de 326 GB/s, uma largura de banda que para jogos Xbox One 4K se revela excessiva, mas que acaba por ser uma consequência do que foi apresentado no hardware da Xbox One. É que apesar de na prática não podermos somar as larguras de banda da Xbox One uma vez que o GPU ou trabalha com a DDR3 ou com a eSRAM, o facto é que o CPU pode estar a aceder à eSRAM e o GPU à DDR3, o que cria usos onde as larguras de banda acabam por ser efectivamente cumulativas. E nesse sentido, qualquer consola da Microsoft necessitaria sempre de 272 (204+68) GB/s (ou 288 GB/s se usarmos os valores da One S como referência para o uso do HDR), valor ao qual teriamos de aumentar um pouco mais para aguentar com as transferências de texturas de maior qualidade que possam ser usadas nas resoluções 4K. E eis que surgem os 326 GB/s!

Por outras palavras, esta largura de banda acaba por ser consequência das imposições criadas pela consola base, e não uma verdadeira necessidade para esta resolução. No entanto, pelo que foi anunciado, a Microsoft planeia utilizar o que tem, melhorando o anisotropic filtering para 16x nos jogos Xbox One e Xbox 360, aproveitando ao máximo o facto desta largura de banda estar lá.

Dentro desta apresentação houve várias surpresas. A primeira já a referimos e foi a escolha de uma arquitectura Polaris! A Microsoft deu-se ao trabalho de alterar os limites da arquitectura de forma a conseguir as performances desejadas, e isso acabou por ser uma boa coisa uma vez que tal desce tremendamente o custo da consola, permitindo assim tornar a mesma competitiva.

A outra surpresa foi a manutenção do Jaguar. A Microsoft alterou-o permitindo superar a sua velocidade máxima (2.2 Ghz), e acima de tudo diminuir a sua dissipação térmica que nessa velocidade já era pura e simplesmente gigante. Tal é feito em parte com a ajuda de alguns hardware auxiliar que removerá algumas tarefas do CPU que, apesar de manter a velocidade de relógio, fica assim impedido de sobrecarregar-se com trabalho, evitando aquecimentos excessivos, e tornando o Jaguar da consola num processador com uma capacidade inédita na sua arquitectura. É realmente um trabalho digno de elogios por parte da Microsoft.

Sem dúvida, toda a estrutura da consola foi algo muito bem pensado pela Microsoft, uma vez que precisava de ir acima dos valores máximos do CPU de forma a conseguir um aumento de performance semelhante ao que a PS4 Pro oferece face à PS4. Neste caso, apenas pela velocidade de relógio são 31% de ganho face ao CPU da Xbox One, que deverão traduzir-se em mais, diria mesmo muito mais, graças ao hardware auxiliar que substitui partes do CPU.

Depois há uma série de outras melhorias em parte “copiadas” do hardware da PS4, como a diminuição das latências entre o CPU e o GPU, e melhorias na comunicação entre os dois, com descidas da sobrecarga criada pelos comandos de desenho, no CPU. O resultado final é que a consola consegue executar Forza 6 (sim, era uma tech demo de Forza 6 não Forza 7), com um nível de detalhe equivalente ao da Xbox O e, a 4K, 60 fps, com um uso de recursos do GPU de apenas 66%, sendo que a Xbox One usa 90% dos seus recursos para correr o jogos a 1080p 60 fps. Numa conversão directa, 4K usa 4 vezes mais recursos, ou 5.2 Tflops, o que quer dizer que teoricamente este jogo deveria usar pelo menos 78% dos recursos da Scorpio, o que não acontece, e demonstra que este hardware possui pelo menos perto de 22% de ganhos adicionais não directamente mensuráveis. E isto nesta fase inicial, o que quer dizer que em termos comparativos face ao rendimento da Xbox One, esta consola seria, em medidas equivalentes, algo superior aos 7 Tflops, e face às optimizações já existentes numa Xbox One face a um PC, seria ainda necessário um valor ainda um pouco maior neste último. Com um nível de detalhe equivalente ao Ultra dos PCs, a Scorpio gasta 88% dos seus recursos do GPU.



Sem dúvida que este consola é uma proeza técnica, e um espremer de tecnologias fantástico. Não é de admirar que a Microsoft tenha demorado mais tempo na sua criação, apesar de a mesma usar as mesmíssimas tecnologias da PS4 Pro.

Mas agora que falamos do bom, falemos do menos bom!

O que ficou aquém do esperado nesta consola?

Bem, muitos poderiam dizer que a ausência de um CPU Ryzen ou de um GPU Vega são decepções. Mas aqui na PCManias discordamos disso! Isso seria bom para uma consola de nova geração, mas não para este tipo de consola que dessa forma perderia toda a ligação com o hardware da Xbox One. O conceito da consola é o mesmo da PS4 Pro, e esse hardware com esta mesma performance não traria nada de novo para a mesa, excepto um tremendo acréscimo no preço. E nesse aspecto achamos que a Microsoft não só fez as escolhas acertadas, como fez mesmo as melhores escolhas possíveis. Repito… estou impressionado!

Mas um ponto que imediatamente decepciona na consola é… o HDMI 2.0.

Mesmo mantendo o HDMI In e o HDMI Out é certo que nesta fase a Microsoft não poderia ainda incluir um HDMI 2.1, mas não pensamos que fosse ser já anunciado o HDMI 2.0. É certo que esta versão do HDMI pode ser atualizada posteriormente com funções do 2.1, como os refrescamentos de ecrã variáveis que sabemos que a consola suportará, mas mesmo assim, a lacuna de um hardware puro HDMI 2.1 impede esta consola de ser 4K nativos. Tanta publicidade a esta característica, e afinal, o que vamos ter não é mais do que um sinal YUV 4:2:2, onde a resolução da imagem em pixels é efectivamente 4K, mas a informação de cor é dada a 1920*2160, o que implica que cada conjunto de 2 pixels vai partilhar a mesma cor.

E tendo a consola esta limitação, as diferenças entre o que ela apresentará e os 4K obtidos por checkerboard rendering na PS4 Pro esbatem-se ainda mais. Daí que este pode acabar por ser um ponto a jogar contra a Microsoft uma vez que a consola da Sony sairá claramente mais barata a produzir, e poderá assim competir a nível de preço, com as diferenças visuais a saírem esbatidas.

Esta situação do HDMI é uma limitação das TVs 4K atuais que explicamos neste artigo, e um dos motivos pelos quais não recomendavamos ainda a compra de Tvs 4K. Acreditavamos que a Scorpio seria a primeira consola com um HDMI 2.1, mas infelizmente… não é o caso.



Outro ponto negativo prende-se com o número de ROPS adoptado. Um dos pontos fracos da Xbox One era o número de rops (16), que criava problemas quando o uso de shaders mais complexos limitando aquilo que a consola poderia fazer. A PS4 possuia 32 e a PS4 Pro duplicou isso para 64. Já a Scorpio apenas duplicou o número da Xbox, ficando com 32! Não é que isto esteja a ser verdadeiramente problemático na Xbox One, e certamente não o deverá ser na Scorpio, mas de certa forma poderá limitar um pouco a consola no que toca a futuros títulos e limitar a qualidade dos shaders face ao oferecido pela PS4 Pro.

Torna-se claro s que a Scorpio foi criada à medida de levar os jogos da Xbox One aos 4K, mas curiosamente a consola está criada exactamente para isso, não tendo performance adicional que consiga fazer o mesmo com jogos com a qualidade apresentada pela PS4 (que para 4K nativos requereriam 8 Tflops). Aliás, nos jogos 720p da Xbox One, a Scorpio não terá performance para os levar a 4K, motivo pelo qual a consola implementa tambem um checkerboard rendering semelhante ao da PS4, para ser aplicado aos jogos Xbox One nessa resolução.

Mas seja como for, o que nos fascina na Scorpio não é as capacidades 4K. Afinal esse é um mercado extremamente reduzido e que não terá representatividade real nos próximos anos, mas sim o que este hardware, sem limitações reais face à Xbox One, pode vir a apresentar no futuro a 1080p.

É certo que nesta fase a Scorpio deverá limitar-se a apresentar jogos Xbox One a 4K, com ganhos reduzidos a 1080p (por meras políticas restritivas que se acredita venham a existir dada a disparidade do hardware), mas um dia mais tarde, com uma nova consola no mercado, e passando a Scorpio para base, ela possui capacidades para levar os jogos 1080p a um novo nível. E isso é algo que a PS4 Pro não oferece uma vez que os seus gargalos são em tudo semelhantes aos da PS4.

Esta é verdadeiramente uma consola de meio de geração. Uma consola que pode fazer a transição entre duas gerações de forma adequada. Algo que a PS4 Pro se propôs, mas que não demonstra verdadeiramente ser…

Termino pedindo desculpas por não abordar toda a temática da Scorpio de forma mais elaborada, sendo que acredito que me tenham passado muitas coisas por abordar, tendo falhado especialmente nas imagens para ilustrar este artigo. Mas infelizmente a revelação apanhou-me numa altura má, onde não tenho verdadeiramente tempo para elaborar um artigo com mais pormenor.

Seja como for, fica a ideia geral. A Scorpio impressiona. É veneno no estado puro, e marca a volta da Microsoft ao topo. Aqui, a consola foi certamente muito bem pensada, devendo eventualmente ser vendida com um custo que poderá surpreender.

E perante o que vejo, apesar de nunca ter ponderado uma PS4 Pro, poderei ponderar uma Scorpio. Mas agora a Microsoft tem de acompanhar é o hardware com o software, pois a nível de jogos, a situação da Xbox One face á PS4 é penosa. E isso comprovaremos com um novo artigo que sairá amanhã.

Fonte: Artigos e vídeos Eurogamer