Será a pirataria a força dinamizadora do progresso e das vendas de hardware?

Antes de qualquer consideração esclareça-se desde já que de forma alguma se defende a pirataria, e que este artigo não pretende apoiar a pirataria de nenhuma forma. Este artigo apenas analisa algumas reflexões sobre a realidade dos mercados, e tenta concluir se a a pirataria estará efectivamente a ser danosa para o mercado, ou se, ao contrário, o dinamiza e impulsiona.

Vamos começar esta reflexão com a seguinte frase: A pirataria pode ser boa até um determinado nível, mas caso se excedam determinadas percentagens o Mercado é danificado ao ponto de as vendas não trazerem lucros, e como tal, a produção desses produtos terá inevitavelmente de cessar.
Com esta ideia exposta, vamos começar:

Não há dúvidas na minha cabeça que os milhões de vendas de CD’s, discos rígidos, discos multimédia, pacotes de internet de banda larga com alta velocidade, e muitos outros produtos, apenas vendem a este nível devido ao facto de a pirataria ser uma realidade. Essa é uma ideia já exposta aqui anteriormente em muitos artigos. Mas será que isto foi sempre assim? E será que esta ideia se aplica à informática em geral? Isso é o que iremos ver no artigo que se segue:

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1982

Os computadores caseiros começam a ser uma realidade comum. No entanto são algo que não se encontra acessível a todos. Os computadores são caros, e apenas alguns possuem a felicidade de os possuir,
O Mercado nesta altura é maioritariamente partilhado entre o Commodore 64 e o ZX Spectrum.
O ZX Spectrum foi o vencedor desta batalha entre máquinas, apesar da supremacia tecnológica do Commodore 64. Como explicar isto?
Bem, a explicação parece simples, pelo menos do ponto de vista que pretendemos analisar aqui.

Tanto o Commodore 64 como o Amstrad CPC, um outro computador da época usavam maioritariamente floppy discs, ao passo que o ZX Spectrum usava maioritariamente as muito mais banais cassetes. Como resultado a pirataria era bem mais fácil de ser realizada no ZX Spectrum. Qualquer um com um gravador de deck duplo poderia facilmente copiar os jogos deste computador, e aqueles com gravadores de alta velocidade podiam inclusive faze-lo em menos de metade do tempo. Desta forma, passar um jogo a um amigo era algo relativamente barato e que quase todos podiam fazer uma vez que os gravadores eram banais nessa altura.
Mas porque entrar por esta linha de raciocinio e não assumir directamente que pura e simplesmente o Spectrum era a melhor máquina?

Bem, o Spectrum era mais barato, e naturalmente isso é algo que terá de pesar igualmente na equação, mas a realidade é que o Commodore 64 era bem melhor. Gráficos a cores personalizáveis ao pixel e sem a limitação de apenas 2 cores em cada quadrado de 8*8 pixeis, bem como um chip sonoro de três canais e não de apenas 1 como acontecia com o “beeper” do Spectrum.
A melhor máquina não ganhou a batalha. Quem a ganhou foi a mais barata e “pirateável”.

1985

Esta era viu a introdução do ATARI ST, e vimos aparecer mais tarde o Commodore Amiga.
Apesar de serem máquinas em tudo muito, mas mesmo muito superiores quando comparadas com os PC’s da altura, o PC acabou por sair vencedor desta batalha (apesar de ter demorado uns anos). Porque motivo?

O Atari St e o Amiga eram de facto máquinas de outra liga. 16 cores no ecrã de uma palette de 512 (Atari ST FM) ou 4096 cores no ecrã de uma palette do mesmo tamanho (Amiga and Atari STE), tudo isto numa altura onde os muito mais caros PC’s eram maioritariamente monocromáticos (Hercules – 1982) ou possuíam apenas 4 cores fixas (CGA – 1981), sendo as cores mais comuns o preto, azul, roxo e branco (na realidade era mais um cinza claro). Em 1984 vimos a introdução do EGA (16 cores de um total de 16 cores) e finalmente em 1987 vemos o aparecimento do extremamente caro VGA, com um total de 256 cores de uma palette de 262.144)

No tocante ao som, possuíamos um chip sonoro de 3 canais (Atari ST FM) ou de 4 canais (Amiga and Atari STE), todos eles capazes de reproduzir áudio PCM e isto contra o chip de um único canal do PC e mais tarde, em 1987 a placa de som Adlib. Placas com capacidades equivalentes às do Amiga/ST e capazes de reprodução de áudio PCM para PC só foram introduzidas em 1989 com as placas Soundblaster 1.0.

Com computadores que se mostravam capazes de oferecer tudo sem despesas adicionais e que até se revelavam mais acessíveis do que um PC, como é que a máquina que era tecnicamente inferior, e que requeria upgrades bastante dispendiosos acabou por ganhar esta batalha enterrando o Amiga e o ST?

Bem, Amiga e ST reinaram enquanto o seu hardware foi superior ao PC, mas assim que o PC recuperou, Amiga e ST estavam condenados.
Porquê? Bem, neste caso, como o é sempre, um dos factores decisivos era o custo das máquinas, que poderia ter pendido para o lado do Amiga/ST, mas esse acabou, entre outros motivos, por ser suplantado pela facilidade na pirataria dos jogos.

Os jogos Amiga e ST eram protegidos. Software especial era necessário para se copiar fosse o que fosse, ao passo que os jogos PC, devido à capacidade de se instalarem para o disco rígido, não possuíam qualquer tipo de protecção.

E dado que as empresas utilizavam PC’s e as pessoas utilizavam-nos para trabalhar, os PC’s acabavam por ser as máquinas mais utilizadas. Desta forma havia muita procura por jogos para estas máquinas. E com a sua facilidade de se copiar o seu software o PC rapidamente dominou o mercado. Ninguém iria comprar o computador mais caro para comprar depois software igualmente caro, mas naturalmente que com o computador queriam programas e jogos para ele.

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Era assim uma situação onde só havia vantagens. As pessoas queriam os PC’s porque era o usado para trabalho mais profissional, e a pirataria depois era extremamente simples.
E esta era uma combinação que o Amiga e ST, maioritariamente virados para os jogos não conseguiam acompanhar (apesar de excelentes programas que ainda hoje se reconhecem como tal e que só existiam para estas máquinas sendo que o Amiga foi uma referência durante muito tempo no departamento gráfico, assim como o ST o foi no departamento sonoro, isto graças às suas portas MIDI embutidas)

Desta forma o PC governou este mercado desde o início dos anos 90 até ao presente dia, e apenas agora os Macintosh começam a ameaçar a sua supremacia. O PC tornou-se na plataforma mais pirateada em existência, ao ponto de esta poder ameaçar o futuro da plataforma.

Mas apesar que isto é uma realidade aparente, vamos pensar por um momento e reflectir sobre estas questões:

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– Será que as vendas de hardware PC, com os seus processadores de 500 euros e as suas placas gráficas de 700 euros venderiam tanto se as pessoas tivessem de forçosamente pagar 60 euros por cada jogo que pretendem, ou 1000 euros por uma licença de um software mais profissional? Sabendo-se que para trabalho mais tradicional o software necessário pode perfeitamente existir em máquinas com menores capacidades de processamento, será que veríamos muitas pessoas a comprar computadores de 1500 ou 2000 euros só para jogar jogos? (e lembrem-se que a cada 6 meses esse hardware vê-se ultrapassado pelos modelos da nova geração).
– Será que tantas pessoas teriam aderido ao PC para jogos, ou mesmo para outros usos como ver e editar vídeos, ou criar renderings 3D, etc, etc, se a pirataria não fosse uma realidade?

É a minha humilde opinião que os PC’s caros e de topo, e em geral toda a plataforma Windows, só são uma verdadeira realidade e sucesso devido à pirataria. O Linux é gratuito, mas não possui o mesmo nível de jogos, e naturalmente que os membros da classe média que pagam 700 euros por uma placa gráfica não pretendem pagar entre 50 a 60 euros por todos os jogos que necessitam para que o investimento seja minimamente rentável. Não haja dúvidas que os computadores e o respectivo hardware devem pelo menos parte (a meu ver a grande parte) das suas vendas ao facto de a pirataria ser uma realidade. Sinceramente acredito piamente nisto.

Consolas

2000 foi ano em que vimos o lançamento da famosa consola Playstation. Esta foi a primeira consola que se massificou ao ponto de se tornar uma referência das massas, atingindo milhões e milhões de lares ao vender mais de 100 milhões de consolas.

Porquê? Bem, por factores vários que foram decisivos.

O principal factor foi a Sony. A empresa possui uma grande implementação em todo o mundo e conseguiu vender a sua consola melhor do que ninguém. Mas será que a PSOne se teria imposto da mesma maneira se não fosse o facto que os jogos pirateados podiam correr na mesma?

Uma vez que a consola vendeu tão bem, era quase comum encontrar-se uma pessoa com uma, de forma que a troca de jogos era algo comum. Mas a verdade é que as pessoas não queriam apenas jogos emprestados, elas queriam os jogos para jogar sempre que lhes apetecia, de forma que a pirataria apareceu. Truques que envolviam a troca de discos, modchips dos mais diversos e muitas outra situações apareceram na PSOne. É certo que a consola vendeu porque era boa, mas também porque era “pirateável”.

E o mesmo com a PS2. Aconteceu com ela exactamente a mesma história, e isso mesmo com o aparecimento mais tarde da Xbox e que era superior em alguns aspectos, mas a realidade é que o facto de existirem muitas PS2 permitia às pessoas terem fácil acesso aos jogos, e o acesso significava a possibilidade de se fazerem cópias.

A Wii também foi um sucesso, mas um dos factores deste sucesso é o facto que pode ser facilmente hackada de forma a correr jogos pirateados.

Da mesma forma falemos da Xbox 360, a segunda classificada a nível de vendas nesta Guerra da nova geração de consolas. E acreditem ou não a pirataria é um dos seus fortes argumentos de venda. A consola é potente, barata e hackavel. Porque motivo não haveriam as pessoas de a comprar?

A PS3 é actualmente a ultima classificada nesta Guerra, e manteve-se durante muito tempo inviolável. Vendeu bem por outros motivos, nomeadamente o facto de ser uma das consolas mais potentes, com grande número e nível de esclusivos e de possuir um serviço online gratuito. Mas com o aparecimento dos hacks a percentagem de pessoas que desbloquearam as suas PS3 foi enorme. A tentação de fugir ao pagamento obrigatório de todos os jogos abriu novas portas à PS3. É que as pessoas questionam-se: para quê comprar uma PS3, mesmo que ligeiramente superior a nível técnico (e não estou a dizer que é, apenas a aceitar esse argumento aqui para provar o meu ponto), se é possível comprar-se outra consola que oferece os mesmo jogos (exclusivos excluídos), mas custa muito menos e pode ser hackada facilmente?

Pessoalmente não possuo dúvidas. A pirataria é má para o negócio. A questão é: para o negócio de quem, uma vez que a pirataria parece ser igualmente a força dinamizadora por detrás das vendas do hardware?

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