Vivemos num mundo digital… Ou será apenas uma rua digital?

Dizer que vivemos num mundo digital é ignorar a realidade. A tecnologia está aí, as infra-estruturas estão aí. Mas a realidade é que a parte do mundo que usufrui desse digital é muito mais pequeno do que se possa pensar.

Digital World

Recuando na história da humanidade temos várias histórias curiosas.

Em tempos alguém disse que o Sol andava à volta da terra… E as pessoas olhavam e viam o Sol a andar à volta da terra e diziam… Sim, é verdade!

Mas felizmente para todos nós a humanidade evoluiu. E as mentes tornaram-se mais inquisitivas, e recusaram-se a aceitar o que era dito, apenas porque era dito, e porque uma análise superficial parecia constatar essa realidade.  E graças a essas mentes a humanidade evoluiu e prosperou!



Foi graças a elas que, entre muitas outras situações do género,  soubemos que a Terra é que roda à volta do sol, apesar de nós vermos o Sol a rodar à volta da terra.

Actualmente o que se diz é que estamos num mundo digital. E tal como quando o homem olhava e via o sol a passar no céu e constatava que ele girava em torno da terra, há quem olhe e veja um mundo de tablets, smartphones e computadores. Mas será que essa é a realidade do mundo, ou apenas da nossa envolvente e o que vemos não corresponde à realidade?

Um estudo da International telecommunications Union, uma agência especializada das Nações Unidas responsável pelos assuntos de comunicações e tecnologias de comunicação revela os seguintes dados:

 

Worldwide Internet users
2005 2010 2013a
World population 6.5 billion 6.9 billion 7.1 billion
Not using the Internet 84% 70% 61%
Using the Internet 16% 30% 39%
Users in the developing world 8% 21% 31%
Users in the developed world 51% 67% 77%
a Estimate.
Source: International Telecommunications Union.

Em uma população de 7,1 mil milhões de pessoas, em 2013, 61% das mesmas não possuia acesso à Internet!  Ou seja , da população total do planeta só 2,769 mil milhões possuem Internet, e 4,331 mil milhões não a possuem.

Só com este dado podemos questionar imediatamente: Estamos efectivamente na era digital? Ou será que a frase correcta é “Há previligiados neste mundo que já estão numa era digital”?

Uma era onde 61% da população mundial não possui sequer acesso à internet, não é certamente algo que possamos unanimemente definir como uma era digital? Quando muito é-o para alguns!

Mas claro, temos os restantes 39% que a possui! Mas vejamos, numa era onde há milhões e milhões de smartphones, quantos destes utilizadores possuem essa internet disponível para o seu PC ou consola?

Vamos ver mais tabelas deste estudo:

Worldwide broadband subscriptions
2007a 2010a 2013a,b
World population 6.6 billion 6.9 billion 7.1 billion
Fixed broadband 5.2% 7.6% 9.8%
Developing world 2.3% 4.2% 6.1%
Developed world 18.0% 23.6% 27.2%
Mobile broadband 4.0% 11.3% 29.5%
Developing world 0.8% 4.4% 19.8%
Developed world 18.5% 42.9% 74.8%
a Per 100 inhabitants. b Estimate.
Source: International Telecommunications Union.

O estudo revela que dos 39% (na realidade, da presente tabela podemos constatar que são 39,3%), 29.5% possuem banda larga móvel, e apenas 9.8% possuem banda larga fixa.

Ora sabendo que a banda larga móvel é muito mais problemática devido às variações de potência de sinal, quebras de rede, instabilidade de serviço e maiores pings, e normalmente com limites bem baixos de tráfego, sendo maioritariamente usada em smartphones e tablets (apesar de poder ser usada igualmente em computadores fixos, e consequentemente em consolas), apenas podemos garantir que 9.8% da população mundial está efectivamente a viver plenamente integrada num mundo digital, com todas as condições para isso.

Ou seja, de um mercado de 7.1 mil milhões de habitantes, estamos a falar de 695.8 milhões de pessoas. Um número consideravelmente inferior.



Mas a situação não se fica por aqui. Há muito mais a analisar e referir.

É que uma coisa é ter banda larga, outra coisa é TER banda larga. Não é preciso pensar muito para se saber que há muitos utilizadores que não possuem as larguras de banda que pagam.

Para termos uma ideia do panorama geral, vamos consultar a Netindex.

Por este website vemos que a média mundial de velocidades de internet vendidas é de 18.4 Mbits. Um valor que à primeira vista não parece nada mau!

Mas vamos analisar melhor esse valor para percebermos melhor a realidade.

Curiosamente o website oferece um outro dado muito interessante, o factor promessa, ou seja, o valor de velocidades internet efectivamente obtido face ao prometido no pacote pago.

E de acordo com os dados do conhecido programa Speedtest, a média mundial de velocidades obtidas face ao pago é de 87,6% (75,4% em Portugal para pacotes médios de 26,8 Mbits e 96.8% no Brasil para pacotes médios de 10,1 Mbits).

Isto quer dizer que se em média mundial os clientes possuem larguras bandas máximas 18.4 Mbits, a velocidade paga é superior a esse valor.

Mas este valor de velocidade é uma média, e há uma coisa que eu gosto muito nas médias. É que se alguém comer dois frangos e eu não comer nenhum, então em média comemos um frango cada um!

Apesar de na realidade eu estar a passar fome, e a outra pessoal andar a engordar valentemente, as médias indicam que ambos somos bem alimentadinhos. É o defeito das médias!



Daí que para não sermos deturpados por estes valores há que perceber a distorção que a média está a criar, e tal só é possível analisando a realidade de cada país. E aqui apenas posso falar pela realidade Portuguesa.

Analisando os pacotes dos maiores operadores nacionais, constatamos que o pacote de maior velocidade vendido é de 400 Mbits, sendo que o mais comum é de 100 Mbits.

MEO

Pacotes de 30 Mbits – 4 ofertas
Pacotes de 100 Mbits – 5 ofertas
Pacotes de 200 Mbits -2 ofertas
Pacotes de 400 Mbits – 1 oferta

ZON

Pacotes 12 Mbits – 1 oferta
Pacotes de 30 Mbits – 2 ofertas
Pacotes de 40 Mbits – 3 ofertas
Pacotes de 100 Mbits – 4 ofertas

Vodafone

Pacotes de 50 Mbits – 1 oferta
Pacotes de 100 Mbits – 2 ofertas

Cabovisão

Pacotes de 30 Mbits – 1
Pacotes de 60 Mbits – 1
Pacotes de 100 Mbits – 1
Pacotes de 200 Mbits – 1
Pacotes de 360 Mbits – 1

Podemos ver por aqui que a média de velocidade vendida em Portugal pelos maiores operadores nacionais é de perto de 100 Mbits (somatório das velocidades*numero de ofertas/total de ofertas). E recorde-se: Estamos a falar dos operadores nacionais com mais mercado.

No entanto, indo ao Netindex que se baseia nos testes de velocidade realizados por todo o mundo, a média de velocidades encontrada para Portugal é… 26.8 Mbits.

Ora se este é um bom número e que coloca Portugal entre os melhores a nível mundial, o certo é que este é um valor bem abaixo da média de velocidades vendidas. Aliás, com excepção de um pacote ZON, nem sequer há pacotes com menos de 30 Mbits.

Isto quer dizer que infelizmente há muitas pessoas com internet que apresenta velocidades bastante baixas. Tão baixas que mesmo com o grosso do mercado a aderir a pacotes de alta velocidade, a média acaba atirada para baixo.

E não é preciso ir muito longe para perceber isto. Serviços fibra só estão disponíveis nas grandes cidades, e o resto do país trabalha com ADSL. E a mais de 4 Km de uma central arranjar alguém que obtenha valores de velocidade perto dos que paga é uma tarefa quase impossível.

Ora adaptando esta lógica à realidade mundial, há que perceber que para uma média de 18,4 Mbits, há muita e boa gente com velocidades miseráveis!

E esta é a realidade do chamado mundo digital. Um planeta onde 61% da população não tem internet, onde dentro dos que tem, apenas 9.8% possui internet fixa, e onde obtém, em média, apenas 87,6% da velocidade contratada.

Agora e após terem lido todos estes dados factuais, há algum defensor de que estamos numa era digital que se ofereça como voluntário para ir dizer a quem não tem internet ou a quem paga por 12 ou 24 Mbits de internet (que é o melhor que pode obter na sua zona por ADSL) e obtém 1 ou 4 Mbits de velocidade real e problemática que, em média, eles estão muito bem e que os DRMs online é algo de muito bom?

É que como a história nos mostrou, não basta meter a cabeça de fora e ver a realidade que nos rodeia para se assumir algo como verdadeiro e universal. Há que se pensar, questionar e investigar!



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